O Sonhador, o Pessimista e o Realista

11 de abril, 2017 - por Max Franco

 

Três homens estavam sentados na areia da praia defronte ao mar naquele fim de tarde. Os três se conheciam de longa data, mas ninguém jamais os acusara de amizades.
O Sonhador era o mais jovem.
O Realista, o mais velho.
O pessimista era um homem de meia idade.
– Eu queria um mundo melhor. – disse o rapaz contemplando o céu.
– Pois eu só quero o melhor do mundo. – falou o Realista olhando o mar.
– Eu desisti do mundo faz tempo. – ponderou o pessimista roendo as unhas. – Ninguém quer saber do mundo, nem o mundo.
– Desistir do mundo não melhora o mundo. – rebateu o garoto.
– Nada melhora o mundo. O mundo não é de todo mau. O cenário é até bacana. O problema está no elenco e no roteiro.
– Você faz parte do elenco e também escreve o roteiro. – provocou o Realista.
– Pois é, eu sou péssimo. Vocês também são. Só não aceitam a verdade… Ainda.
– Qual é a solução? – perguntou o Sonhador, porque é dos sonhadores sonhar.
– Invasão alienígena!
– Como assim?
– Vá por mim. Invasão de extraterrestres.
– Explica que não entendi.
– Realistas só entendem o que se apresenta no powerpoint e com planilha excel. Não tem jeito! Simples: já viu brasileiro em país distante? Não importa se é do sul ou do norte, preto ou branco, rico ou pobre… Brasileiro em país distante se une. Por aqui, somos todos desunidos. É mais fácil se unir contra do que a favor. Quer unir uma família? Basta ter outra contra. Quer unir um povo? É só eleger outro povo para odiar. Os alemães usaram esta estratégia na 2a Guerra. Se uma horda alienígena nos invadisse, nós nos uniríamos. Brasileiro em terra distante se une para se proteger.
– Deveríamos, então, torcer para os Estados Unidos nos invadirem?
– Não. A comida é péssima. O presidente é maluco. Vamos torcer pelo retorno do portugueses, além do bacalhau, mantemos a língua, ainda ganhamos o Cristiano Ronaldo e Fernando Pessoa.
– Pois eu sonho com a união a favor! – disse o Sonhador.
– Por isso que você é o Sonhador e não o Realista neste conto. – gracejou o Pessimista.
– Não há futuro sem sonhos! – decretou o Realista.
– Tudo depois de ontem e anteontem foi futuro, e o que melhorou?
– Se todos fossem como você, seria o caos. – acusou o Sonhador.
– Não! Se todos fossem como você é que seria o caos. – apontou o homem.
– Vocês não vêem a realidade!
– Vocês não sonham!
– Vocês são idiotas!

E cada um se afastou gritando impropérios um para o outro para nunca mais se encontrarem.
O mundo por sua vez continuou da mesma forma. Não houve invasões alienígenas. Não houve uniões nem contra nem a favor. Principalmente, nada foi feito nem pelo Realista, nem pelo Pessimista, nem sequer pelo Sonhador.
Porque a realidade e que o mundo pode mesmo ser péssimo, mas, sem sonhos, nada de fato muda.
A humanidade precisa voltar a sonhar e sonhar com a cabeça nas nuvens, mas com pés no chão e mangas arregaçadas. Sonhamos melhor quando sonhamos juntos, cada um do seu jeito. Uns sonham muito e fazem pouco. Outros fazem muito e sonham menos. O importante, além de sonhar, é fazer e fazer, nem que seja pouco, todos os dias.
Sonhos sem fatos são pássaros sem asas.
– Ou pior, são asas sem pássaros.