História para dormir

16 de novembro, 2016 - por Max Franco

 

Paulo Roberto trabalhava viajando. Era consultor de uma grande empresa de contabilidade e frequentava mais aeroportos e hotéis do que a própria casa. Quando começou na profissão, não podia estar mais feliz. O salário era atraente, mas o que mais o animava era a viagem perfil executivo, maleta na mão, terno e gravata, programa de milhagem recheado.
Como tudo na vida, há sempre o fator “prazo de validade” e brilho do novo emprego tinha ficado no passado. Depois de certo tempo, Paulo percebeu que não era turismo aquilo que fazia e que não tinha muita graça em chegar às cidades para conhecer apenas o aeroporto, dois ou três restaurantes e a empresa onde trabalharia.
O pior de tudo era a solidão. Todo trabalhador, ao menos, tem o consolo de encontrar diariamente os entes queridos. Quem está na estrada não volta para casa e, sim, para um quarto de hotel. Não há ninguém a esperá-lo. Paulo acendia sempre a tv para ter a sensação de companhia. Muitas vezes, ia ao shopping para ouvir vozes. Para alimentar a ilusão do pertencimento.
Paulo vivia esse dilema há anos: sorte no jogo, infelicidade no amor. Porque quem amava estava sempre distante.
Depois de anos de trabalho, sempre viajando, Paulo chegou ao seu limite. Andava tão triste e solitário que puxava assunto com estranhos na fila do aeroporto, fazia confissões ao garçons e estava preocupado com a sua recente falta de motivação para trabalhar, coisa que, antes, nunca ocorrera. Afinal, ele amava o seu ofício. Paulo Roberto não sabia da sua condição, mas estava muito perto, na calçada, da depressão.
O que salvou o nosso protagonista do esgotamento nervoso?
Uma história.
Como assim?
Isso. Uma história. Na verdade, uma fábula.

– Burro. Sim. Um burro. – disse o homem sentado ao seu lado no avião.
– Desculpa, o senhor disse algo? – perguntou intrigado.
– Só um instante, filho! Eu que peço desculpas, moço. Eu estava falando aqui com meu filho antes de fecharem as portas da aeronave.
– Ah, sim. Pensei que estivesse falando comigo.
– Não. Imagina! É que todas as noites eu conto uma história antes de ele dormir. Eu acabo viajando muito e aproveito para fazer pelo aparelho celular mesmo.
– Boa ideia! Bem que eu poderia usar mais…
– Eu uso bastante. Preciso de um plano bem robusto, por isso o meu é da Claro. De longe, é o melhor!  Ontem, ensinei matemática para o Pedro por videoconferência. Na verdade, quando estou no hotel, na estrada e nas refeições, fico sempre falando com a família. Nada é mais importante do que família, não é? Sei que nada substitui a presença, o abraço, o carinho, mas a gente faz o que pode.
– É. Você tem razão! Tem muita razão!
Paulo Roberto terminou aquela viagem cheio de ideias na cabeça e, quando aterrizou, além das suas bagagens, carregava diversas resoluções. Algumas que, como desconfiava, iriam mudar completamente a sua vida e da sua família.
– Filho, oi filho, como vai? – disse pelo video para o seu filho de 8 anos.
– Oi, pai. Que novidade é essa?
– Paulinho, agora vai ser sempre assim. Vamos conversar muito. Você topa?
– Claro, pai! Vou amar.
– Já mudei até o meu plano de celular, Paulinho. Porque vamos falar muito.
– Sobre o quê, pai?
– Vamos começar com uma fábula, filho. Vou lhe contar a história do burro que queria parecer leão. O burro estava na floresta e quis pregar uma peça nos outros bichos…