Quando – no trabalho – reina a desalegria

21 de fevereiro, 2017 - por Max Franco

Era uma vez um reino, faz tempo, demasiado tempo, antes da palavra escrita e dos livros, antes mesmo dos dragões e dos cavaleiros, antes tanto tempo antes que essa historinha já tinha se extraviado entre as prateleiras dos séculos. Era um reino triste onde não existia nem sequer um sorriso. Desalegria era o seu nome. Um reino de natureza infeliz. Não que houvesse leis contra festividades.Longe disto.As pessoas até desejariam ser felizes, só não sabiam mais como nem sabiam que não eram. O cidadão desalegrense não conhecia felicidade. Como saberiam que não a tinham? Ele era macambúzio de nascença. Ele nascia, chorava e não parava nunca mais. Era mais do que um sentimento. Era um costume nacional, como gostar de salsicha, na Alemanha, e de lasanha, na Itália.

Era um país esquisito, o reino da Desalegria. Um lugar violento, onde assaltos e roubos ocorriam cronicamente, de impostos altos e serviços ralos, onde tudo era caro, até as autoridades eram caras. O reino era de natureza exuberante, mas, mal cuidado, inóspito e malcheiroso, com grandes cidades sujas, depredadas, desorganizadas. Era um lugar triste repleto de gente triste.
Até que, certo dia, ocorreu o imponderável e o imponderável foi a chegada de um imigrante chamado Armando Ventura. Armando viera de Outrasbandas, um país onde reinava a música, a dança e os jogos. Não podia ter ficado mais desambientado do que em Desalegria.
Ventura chegou em Desalegria e estranhou tudo. Estranhou a aridez dos sorrisos, a falta de risos, e de festas. Estranhou o cinza das ruas esburacadas, o hábito disseminado de tentar tirar vantagem um do outro, as corrupçõezinhas e as grandes tramóias de cada dia, a preguiça dos funcionários públicos e privados, a leniência dos gestores públicos e privados, a falta de compromisso dos profissionais públicos e privados. Estranhou mais ainda o público virar privado e tanta coisa que devia ser privada virar pública.
Armando não quis mudar nada. Não fez projetos nem planilhas excel. Armando apenas foi ele mesmo e decidiu sê-lo diariamente.Ele is trabalhar munido do seu melhor sorriso e cumprimentava quem encontrasse, seja porteiro, seja patrão. Coisa que escandalizava a todos. “Como assim sorri tanto?”
Depois do choque inicial, não demorou para que os seguidores de Ventura se multiplicassem em todas as latitudes do reino. A consequência disto, porém, não foi nada agradável para o nosso imigrante, que acabou sendo preso pela coroa com a denúncia de ser um agitador revolucionário.
Armando, que nunca fizera um só discurso nem sequer postulado qualquer posição política, ficou preso como líder rebelde por quatro meses. Durante este tempo, sofreu torturas impensáveis, inclusive sendo obrigado a assistir horas a fio de BBB, TV câmara e TV senado. houve momentos nos quais até o seu sorriso obstinado fraquejou.
Com espírito quebrado e sorriso murcho, depois do seu purgatório, Armando foi a julgamento. Quando saiu à rua, se assustou com o séquito de sorridentes que o escoltavam. Era uma multidão. Ele não quis advogado, mas pediu a palavra para se defender das graves acusações.
A esperança não é apenas um sentimento. A esperança é uma atitude! – disse e se sentou. Porém, não sorriu. Teria o seu famoso sorriso morrido na prisão?
A assembleia demonstrou apoio e repúdio com vaias e palmas incessantes. No reino da Desalegria, reinava a confusão.
O juiz era um homem dos mais sérios num mundo de gente séria demais. Por isso, ninguém esperava ouvir o que ele iria dizer.
Eu tenho uma solução que vai lhes parecer salomônica, mas considero justa. Marcaremos uma data. Sorridentes e dessorridentes de toda a nação devem se encarar durante um minuto. Ao término do tempo, se a maioria estiver alegre permitiremos este sentimento no reino. Se não, os festivos terão que se adaptar ou serão imediatamente exilados.
Por fim, acrescentou com um tom enigmático:
– Ventura, o seu nome diz tudo. Lembre-se, a esperança não é só um sentimento, mas uma atitude! Escolhe-se ter esperança!
Chegou o grande dia e em todo o reino, nas ruas e avenidas, nas praças e mercados, toda a população se perfilou. De um lado, os casmurros, do outro, os animados. Todos se encarando, firmes nas suas posições. Como sinal para começar a disputa, soaram os sinos das igrejas, apitos e sirenes das fábricas. Todos se encararam silenciosos. A disputa crucial, enfim, começara.
Armando confrontava, nada mais, nada menos, do que o próprio rei de Desalegria. Um homem que jamais havia sido flagrado num menor esboço de sorriso. Ventura, estranhamente, parecia acabrunhado e inseguro.
10 segundos.
20 segundos.
30 segundos.
Os segundos sucediam com a natureza dos segundos. O país inteiro prendia a respiração. De um lado, sorrisos entreabertos, hesitantes e sem convicção. Do outro, a mais legítima seriedade desalegrense, a tradição nacional.
Até que Armando, trazendo coragem do fundo do peito, decidiu virar o jogo e, olhando fixamente nos olhos do Rei Antipático, soltou a mais genuína e visceral risada da sua vida.
40 segundos.
Dava para ler no rosto do rei cada sentimento que lhe assaltou. Primeiro, ele se assustou, depois se enraiveceu com a petulância do imigrante, depois…
50 segundos.
…caiu numa imensa e interminável gargalhada. Talvez a primeira de toda a sua vida.
A consequência não poderia ter sido diferente: absolutamente todos caíram numa risada efusiva, de peito aberto e lágrimas nos olhos.
O Reino da Desalegria, então, em plebiscito, mudou de nome. Virou “Reino da Esperança”, um lugar onde qualquer sentimento coexistia, mas onde a esperança era o principal costume.