A delação do diabo

23 de maio, 2017 - por Max Franco

Se eu fosse o Diabo, qual história contaria para engajar meus colaboradores?

– Nome completo? – perguntou o promotor.
– Samael.
– Completo.
– Samael, mas, desde a queda, me chamam de outros nomes: Lúcifer, Mefistóteles, Tinhoso, Coisa-ruim, Cão, Diabo, Satanás, Baal, Exu, Hades, Temer… Como eu lhe disse, muitos nomes.
– Mas, eu não posso colocar todos os nomes. Preciso do oficial.
– Pois coloca Samael Ângelo.
-Ângelo?
– Isso. Eu sou um anjo, não sabia? Um anjo que escorregou.
– Sobre quem é a sua delação?
– Deus.
– Deus?!
– Isso. Deus. Jeová. Javé. Nosso Senhor. Pai do céu. Todo-poderoso.
– Preciso do nome oficial.
– Coloque Jeová.
– O que Jeová fez.
– Tudo. Não foi? Em sete dias e viu que era bom. Modesto! E pior, Jeová sabia de tudo e não fez nada.
– Como assim? De tudo o quê?
– De tudo-tudo, tudinho, a coisa toda: corrupções, maldades, crueldades, genocídios, terremotos, tsunamis, roubos, assassinatos, sequestros…
– Qual foi a participação dele?
– Cumplicidade, e no mínimo, omissão.
– Mas, Deus dá a humanidade o livre arbítrio…
– E você é promotor público ou advogado de defesa?
– Deus escreve por linhas tortas…
– Sim, ele tem Parkinson. Deve ser a idade!
– Por que você culpa a Deus?
– Onisciência, onipresença, onipotência e não fez nada? É corrupto ou incompetente.
– Quando houve os fatos relatados?
– Desde Adão e Eva até agora. O casal foi bode expiatório. Na verdade, ele foi bode, enquanto ela, cabra expiatória.
– E o que você quer em troca pela colaboração?
– O kit-delação completo. Me serve o pacote Odebrecht e não o JBS que é um absurdo. Me serve o de praxe: tornozeleira eletrônica, regime semiaberto, redução de pena, depois, prisão domiciliar.
– Domiciliar? Onde?
– Na Suíça. Eu tenho residência lá. Não sabia? Quem você acha que inventou os bancos suíços e indústrias de chocolate?
– Depende muito. Quem mais está envolvido?
– Muita gente. Na verdade, toda a gente. Talvez até você!
– Como assim? Por que você diz isso?
– É comum do ser humano se fazer de desentendido. Vocês fazem todo o tipo de barbaridade há milhares de anos atribuindo a mim tudo que fazem errado. A culpa de todo mal é sempre minha.
– E não é?
– Eu nunca forço ninguém a nada, moço. Não ofereço prêmios na próxima vida em troca de nada. Não quero que você não seja aquilo que é. E quer saber? Eu – sim – aceito vocês deste jeitinho.
– Você não quer a alma das pessoas?
– Eu?! Para quê? Povoar o inferno? Você acha que lá está faltando gente. Eu quero é sair de lá, cara.
– Por quê?
– Superpopulação! Trânsito! E o problema é o povinho que aparece por lá. E demoram, sabe? Uma eternidade. Para piorar, já-já, vão baixar Malafaia, Bolsonaro, Valdomiro, Edir Macedo, Aécio, Trump…
– Sarney?
– Não. Sarney já foi 4 vezes. Quando ele morre, a gente devolve. E too much for us! A gente manda de volta. Tipo “walking dead”, sabe?
– E você deseja apenas semiaberto na Suíça?
– Por enquanto, seria uma boa. Combinado?
– Podemos ver. Vou relatar e enviar para o STF.
– Gilmar Mendes, por favor.
– Não pode ser. No seu caso, o tribunal é literalmente o Supremo.
– Supremo-supremo? Você quer dizer “Ele”?
– Ele, o filho e…
– Você deve estar de brincadeira. Que chance eu tenho? Que inferno!
Ora, Samael! Se Deus não tiver imunidade, quem teria?! Você deveria ter mais fé, sabe?
– Fé?! Duvido de que alguém tenha mais fé do que eu. Ninguém deve pensar mais em Deus do que eu. Ele deveria ser grato…
– Grato a você?
– Claro! Se não fosse por medo de mim e do inferno, você acha que as pessoas O seguiriam? Ele não quer admitir. Parece que tem um deus na barriga. Sempre foi orgulhoso! Mas, Ele precisa de mim.
– Você devia fazer a pazes. Parar com esta briga besta. Deus aceitaria. Deus é bom. Deus é fiel!
– Puxa vida! Tanto gente para eu procurar, e eu acabo achando um promotor crente. É perseguição política! Estão armando para mim! Nunca antes na história da humanidade, uma entidade teve a vida mais devassada do que a minha. É um inferno!