RomamoR

27 de abril, 2016 - por Max Franco

Era o ano da graça de 1991, quando pela primeira vez coloquei meus pezinhos com 9 dedos (sim, eu só tenho 4 dedos no pé direito, mas isso é outra história!) no território do Velho Mundo.
Saí de Recife com meu amigo Bruno Safadi do lado (sim, Safadi é mais que um sobrenome, é um predicado!) e desci em Roma. Era inverno e as minhas pobres roupas eram tão adaptadas ao frio quanto Fortaleza é aos sortilégios da chuva. Resultado: eu tiritava de frio.
Mas, eu não dava ouvidos aos apelos da minha epiderme. Tinha mais o que fazer. Meus olhos me requisitavam mais atenção, e não era por menos. Estava realizando um sonho. Mais que um sonho, o sonho. Estava em Roma, na Cidade Eterna, na Cidade das 7 colinas, Para onde vão todas as estradas. (Quo vadis, Domine? Perguntou a Voz ao alquebrado Pedro. Volte a Roma. O seu povo lhe espera. E o discípulo voltou e morreu crucificado, de cabeça para baixo, para provar a sua fé.) A capital do Império Romano com seus mil anos de intrigas, guerras e dominações, a cidade dos Césares, a sede do catolicismo e a casa do papa.
Saltei em Roma com uma bolsa na mão, uma mochila pesada nas costas, cem dólares no bolso e uma coleção de roupas que tinha que evoluir muito para ser chamada – apenas – de sofrível. A verdade é que o meu guarda-roupa estava um só degrau acima da mendicância. Mas quem se importava quando se estava em Roma?!
Logo no primeiro dia, cruzamos a cidade antiga: o altar da pátria e mausoléu de Adriano, o Circo Máximo e as Termas de Caracala, a Basílica de São Pedro e a Fontana di Trevi, e, ai meu deus, o Coliseu. Ele estava lá, no alto da rua, imenso e impávido, como dissesse “eu sou testemunha da História e você quem é? “. “Apenas um garoto” respondi-lhe, um garoto feito de olhos, com olhos maiores que olhos podem ser. Olhos e coração. Um coração que percussionava no peito mais que a batucada inteira do olodum no pelourinho.
Não era por menos. Eu era apaixonado por Roma muito antes de ela me ser apresentada. Eu nutria uma paixão platônica, distante. Tal qual com aquela garota da escola que admirava, mas que não sabia da sua existência. “Oi, eu sou o Max. Desculpe-me a ousadia, mas quero lhe conhecer desde os meus 14 anos, quando ouvi falar de você, de Vossa Senhoria, na aula de História do Professor Diogo. Sei que é enorme e poderosa. Sei da sua envergadura. Sei de Rômulo e Remo, da Loba que os amamentou. Sei de César, Marco Antonio, Brutus,Otaviano e Cícero. Sei dos seus ditadores e generais. Sei de Cláudio, Messalina, Calígula, Nero, Trajano e Adriano. Sei também de Bernini, Michelangelo, Rafael e Burromini. Sei de tanto, mas longe-muito-longe, de saber perto de tudo. Sei que diante do seu tamanho, tenho pouco ou quase nada para lhe oferecer, a não ser ouvido para escutar o canto das suas pedras e olhos para lamber as cascas dos seus prédios. Porque eu, nunca em minha curta vida, vi nada tão belo quanto as suas feiúras, nem nada tão bem acabado quanto as suas ruínas, suas estátuas rotas, seus templos desmoronados, suas paredes puídas. Então, mesmo você sendo tão alta, tão maior do que eu, podemos dançar uma vez?”
Foi isso que fiz. Com as mãos da audácia, chamei Roma para dançar e, ela, generosa e altiva, me estendeu o seu braço aceitando o convite.
Lembro-me que um dia depois da minha chegada, nevou em Roma. Coisa das mais incomuns. Corri para rua desvairado sorridente, ridente, gargalhante. Fiz bola de neve, atirei na cara do Bruno que me devolveu. E nós não tínhamos 20 anos, mas 10. Tínhamos 10 anos e rolávamos na neve com uma felicidade táctil, a felicidade que só os jovens tem. Aquela que pretendemos eterna. E foi, e é. Porque há felicidades que não se extinguem jamais. Ficam pregadas na parede das lembranças como placa de bronze, arraigadas e agarradas às suas memórias.
Depois de anos lendo sobre Roma, eu enfim lia Roma.
E me ocorreu um pensamento louco. Como eu era pequeno, e Roma, enorme. Roma me engoliria. E dentro de Roma, enfim, seria Roma.
Passei um mês em Roma nessa oportunidade. Depois voltei muitas vezes. Emoções diferentes oriundas da mesma grande emoção: viver um sonho. Acabou o mês e parti de Roma. Mas, não parti incólume. Saí de Roma levando para todos os portos onde desembarquei o germe da Cidade Eterna, um vírus poderoso, que carrega o desejo de Júlio e quer invadir o mundo inteiro.
Hoje, depois de tantas vezes, mais uma vez, ponho os pés na cidade dos Césares (queria o Bruno aqui, seria divertido! ) Será como rever aquela amiga? Decerto! Vou admirar o Pantheon e os aquedutos, vou caminhar na piazza di Spagna e na Navona, vou provar gelatos e carbonaras, como fiz tantas vezes. Não quero ver nada novo. Quero só dançar ao som de uma tarantella com uma antiga amiga. Não quero enxergar à frente.
– Quero só retrovisor.