Ridículo sentimental

15 de março, 2019 - por Max Franco

Hoje revi um amigo do passado.
Aconteceu por acaso como geralmente ocorrem os acasos. Estava no shopping, o vi passar e – posso confessar – pensei duas vezes se chamava ou não a sua atenção. Mas, não era um amigo desses de ocasião. Na verdade, havia sido amigo de muitas horas, ou muitos anos, amigo-bombril, de mil e uma utilidades (apesar de que jamais entendi por que diabos um bombril teria mais de uma utilidade!).
Esse amigo tinha sido amigo de família, amigo de trabalho, amigo de viagens, amigo sem protocolos, amigo de confessionário…
O que o Tempo faz com a gente?
Ele, o Tempo, muita vez, corrói e enferruja até as maiores amizades.
Eu não sei se ocorre o mesmo com todo mundo, mas amigo, para mim, é artigo precioso e, além de tudo, cada dia mais raro.
Por isso, odeio extraviar meus amigos. Quero-os sempre a tiracolo.
Mas, esse, como já deu para notar, andava por outras paragens fazia tempo. Mais tempo do que devia.
Pelo conjunto da obra, chamei-o para um café e para uma conversa, por anos, adiada.
Como era de se esperar, as palavras começaram frias, desajeitadas. Mas, pouco a pouco, foram se assentando e encontrando o seu lugar. Não demorou para o papo aquecer e para rirmos das mesmas velhas piadas e chorar das mesmas antigas mágoas.
Porém, como houvesse uma parede qualquer, a conversa esbarrou em algum muro que erguemos sei-lá-por-qual-motivo e silenciou. Ele olhou o relógio, acusou a hora, fez uma lista de promessas de novas oportunidades e seguiu seu caminho.
Eu contemplei a xícara vazia e engoli o resto do café frio como se quisesse engolir junto as palavras não ditas que talvez quisesse dizer.
Eu talvez quisesse dizer o quanto a sua amizade me fazia falta, quanto havia sentido a sua distância e quanto admirava o seu humor rústico e a sua inteligência refinada.
Talvez quisesse me queixar pela sua distância proposital, pela sua indiferença muda durantes esses anos.
Talvez quisesse também abraçá-lo para lhe pedir para nunca mais me deixar só da sua presença.
Talvez eu quisesse… Mas, a vida é uma árvore pesada de tanto talvez.
Quem sabe na próxima esse talvez se transforme em vez.

Sinceramente, acho que os anos me fizeram um sujeito ridiculamente sentimental.