Perdas e danos

04 de julho, 2016 - por Max Franco

O melhor amigo do homem é outro cão.

Sofocleto

 

Não há mais quem suporte transitar em Fortaleza. Tenho certeza de que, se na época de Dante houvesse carros, o purgatório teria sido descrito como um infindável engarrafamento. E, talvez, com vários diabinhos insistindo para limpar seu parabrisa.

Simplesmente não há mais o horário do rush nessa cidade. O rush se institucionalizou e ganhou o dia. Culpa dessa nossa cultura veicular, individualista,  é claro! Basta o sujeito ter uma graninha e lá vai ele comprar o seu carro em suaves 600 pagamentos. E ainda há todos os obstáculos estruturais: vias estreitas, ruas esfareladas, viadutos escassos, pouco túnel, nada de inteligência de trânsito, nenhum metrô e nem sequer uma diminuta educação advinda dos motoristas. É, como eu disse, o purgatório. Um purgatório de asfalto.

Por isso que não se passa mais um dia que não se veja um acidente nessa cidade.

Tenho cogitado se é a educação que forma o espírito do homem ou é a multa. Coisa que me motiva a ter alguma esperança no futuro da humanidade. Não tanto em virtude de elementos sofisticados como ética, religião ou cidadania, mas por causa da câmera. A câmera ainda salvará a humanidade. Afinal, estamos, a cada dia que passa, mais vigiados. Há câmeras nas esquinas, câmeras em relógios, câmeras em canetas, câmeras em chaveiros e até câmeras em câmeras. Não vai dar mais para escapar. Não tem jeito, cedo ou tarde, ou teremos que prestar ou teremos que ficar invisíveis.

No entanto, atualmente, talvez porque não haja tanta câmera assim, apesar de todas as multas e fiscalizações, ainda há muita imprudência à solta, logo, colisões o tempo todo.

Mas, além de todos aqueles motivos que já citei, tenho uma teoria original sobre o que, de fato, causa abalroamentos: geralmente, dois carros se chocam, porque ambos eram guiados por indivíduos que queriam estar no mesmo lugar ao mesmo tempo. E não é justamente esta a razão de todos os embates?

Todas as trombadas sociais do nosso cotidiano não são provocadas por desejos coincidentes? No fim, a questão não é queremos exatamente as mesmas coisas? A mesma posição na rua, o mesmo carro, o mesmo status, o mesmo poder, a mesma grana, a mesma mulher, a mesma emoção, a mesma condição… Preferivelmente aspiramos pelas coisas dos outros, já que as nossas, depois de um tempo, tendem a perder o viço e a graça.

O amor, por exemplo. Se há algo com prazo de validade é o amor. Diz um amigo meu, exímio artesão de analogias infames, que relação afetiva é igual à comida. Só é apetecível enquanto é quente. Há quem encontre sabor em pratos frios, mas é mais difícil. Mulher boa é a nova, dizia o cínico quando o encontrei ao lado de uma discreta colega de trabalho, que não era sua esposa, num bar afastado. Mulher boa é a nova! Nem precisa ser jovem, mas nova. É a novidade que anima! – decretou o descarado.

De fato, não seria melhor dizer que relação boa é a nova? Uma que ainda possa fornecer paixão, tesão, emoção, porque, depois, de um tempo, como tudo sob o sol, as cores se esvaem opacas, o carro é roído pela ferrugem, a casa vaza com infiltrações, a pele extravia o macio, tudo desmorona. É a vitória da gravidade. A fatalidade do tempo.

É nesse limiar que é preciso se redirecionar a bússola, fazer novas escolhas, e, com elas, novas renúncias. Afinal, a novidade exerce um apelo agressivo, mas, em contrapartida, não traz no seu repertório valores como lealdade, história e, principalmente, intimidade.

Qual o prato da balança que pesa mais? Ser adulto é ser capaz de pagar seus preços e encarar escolhas e renúncias. Há muita gente solitária por aí porque não sabe lidar com decisões e perdas. Ninguém aceita perder, se perde e perde tanto por causa disso.

Tudo isso ocorre, porque, certamente, se relacionar é a coisa mais difícil que existe. Na verdade, toda e qualquer dificuldade é sempre relação. Relação com o mundo, relação com o meio ambiente, com as demais pessoas, com a família e, mais complicada de todas, consigo mesmo. Não porque desejamos coisas diferentes, mas exatamente porque cobiçamos as mesmas coisas, o choque é inevitável.

A minha maquininha de cismar não pede arrego.