Palavras aladas

18 de maio, 2016 - por Max Franco

“Arapucas capturam passarinhos, e os presentes, as garotas”. (Provérbio ídiche)

 

Uma vez comentei com amigos, num inóspito bar, sobre uma crônica cujo conteúdo tinha me impressionado tanto que, inclusive, a tinha utilizado como argumento para iniciar um relacionamento amoroso. Eram outros tempos, pois na época em que o RPM fazia sucesso, não era incomum que rapazes pendurassem pochetes na cintura, portassem calças justíssimas e pedissem em namoro as pretendentes. Tudo muito esquisito. Hoje em dia, tudo é mais rápido na pragmática era do fast food. As pessoas não costumam perder tempo com conversas gratuitas. Elas ficam, ficam mais um pouquinho, depois casam e se separam sem quase trocar duas palavras.

Mas… Voltando à crônica:

– Era uma vez um passarinho…

Não era um passarinho qualquer porque, em vez de viver simplesmente passarinhando por aí como faz a maioria dos passarinhos, esse protagonizava uma crônica do Rubem Braga. Como se sabe, há poucos bichos de apelo tão artístico quanto passarinho. Podemos enumerar um sem número de protagonistas alados de textos absolutos da nossa Música e Literatura. Entre outros: o sabiá do Tom Jobim, o bem-te-vi do Paulinho Pedra Azul e o assum preto do Luiz Gonzaga.

A singela história versava sobre um temperamental passarinho que se recusava a cantar. O dono havia tentado de tudo: trocara a alimentação, colocara outro passarinho – esse cantante – na gaiola, e até pusera um rádio ligado ao seu lado. Por fim, levara ao veterinário, o qual decretou que o bicho não cantava por causa de algo parecido com uma depressão pós-trauma. Como não há psicólogo de pássaro (ao menos acho que não há!) o bicho seguia desenxabido no seu canto da gaiola sem que nada lhe convencesse a fazer a sua estreia no mundo artístico.

Até que um dia, o dono, despretensiosamente, deu-se a assoviar uma melodia. O resultado não poderia ter sido mais surpreendente: não é que tal música clicou um start qualquer no tal passarinho que, imediatamente, abandonou a sua mudez contumaz e pôs-se a cantar linda e ininterruptamente?

A moral da história é simples de se constatar: há coisas especiais!

Afinal, o que tinha de peculiar naquela bendita música que as outras não tinham?

Para a pretendida namorada – embevecida – não tive escrúpulo de me utilizar da genialidade do Rubem e ofereci, numa bandeja de prata, uma pergunta semelhante: o que ela detinha de particular que logrou tocar onde outras sequer tinham se aproximado?

Como diria o Nelson: batata! Funcionou mesmo! Valeu pela força, velho Rubem! Não só eu, mas também o bando de plagiadores, aos quais denominava de amigos, acabamos por fazer a festa lhe citando à revelia, anos a fio.

Se existe uma coisa que admiro num bom autor é a capacidade de tratar do cotidiano e de coisas comuns sem perder a profundidade nem a complexidade. Tudo que é realmente bom é complexo. Só simplórios gostam de coisas simples. A vida não é simples, como as pessoas também não são. Tal como um vinho magnífico desperta os mais diferentes sabores no paladar; tal como um prato excelente encerra temperos e texturas variados, um texto excelente é aquele que sugere os mais diversos sentimentos no leitor. Tudo que tem qualidade possui alma. E a alma é vasta, indecifrável e plural.

E alma faz falta sim, caro Rubem! Que costumava dizer que não era um bom negócio vender a alma porque a alma, às vezes, poderia fazer falta.

Sei disso porque vejo muita gente e coisa sem alma por aí. Não que ande à cata de almas mundo afora. Nunca vi nada sobrenatural na vida, nem visagem, nem OVNI, nem profecia… Nada. E não quero começar hoje. Nem amanhã.

Estou falando da anima, aquela força interior que nos move, que nos motiva e nos dá sentido. É justamente dessa anima que as palavras de Rubem estão permeadas. Palavras aladas. Palavras cantantes. E tais como seu passarinho, especiais.

 

FRAGMENTO EXTRAÍDO DO LIVRO PALAVRAS ALADAS, PRÊMIO MILTON DIAS DE MELHOR LIVRO DE CRÕNICAS DE 2010 – SECULT CE