Os sonhos ambulantes

26 de setembro, 2017 - por Max Franco

Enfim o sábado, o esperado sábado, o sábado ansiado, sábado-contado-nos-dedos, o Grande Sábado havia chegado.Seu pai tinha anunciado no começo daquele ano “iremos no sábado, dia tal, quando você completar 18 anos, comprar o seu carro. Você vai poder escolher. Lógico que vai!”. Pois chegara, enfim, o grande dia.
Joana saltou da cama com a disposição que só quem tinha aquela idade sabia ter.
– Mãe! – disse ela, animada durante o café da manhã. – Hoje é o dia!
– Lógico que é. – comentou a mãe com um sorriso de Monalisa. Indecifrável.
– O que foi, mãe?
– Nada, filha! Falei algo?
Então, logo após, com uma matilha de pulgas atrás da orelha, Joana e seu pai partiram para a concessionária.
– Pai, não era aquela ali atrás a concessionária? – perguntou Joana intrigada.
– Não. Aquela é a de carros novos…
– Pai…
– Filha, é a crise. Adoraria lhe dar um carro novo. Mas, agora o teto é outro. É o pé direito deve ser baixo.
Pai e filha foram recebidos com efusividade pelo jovem vendedor. O pai acompanhava o tom de simpatia do rapaz. Joana calada.
– Maravilha! Que belo presente o seu pai está lhe dando, moça! – falou o rapaz com um sorriso de dois quilômetros. – Meus parabéns!
– Ele promete faz anos… Mas a promessa era outra…
– Filha, sabe com qual idade eu tive o meu primeiro carro? 26 anos. Comprado por mim, por sinal.
– Pai, não estou reclamando…
– Podemos fazer uma coisa? – interrompeu o vendedor. Deve ter pensado que o clima pesado não lhe seria muito proveitoso. – Posso fazer um passeio com a moça para lhe mostrar alguns veículos? Depois, pediremos a sua opinião. Pode ser?
O homem aparentou surpresa, mas não recusou a proposta. E lá foi a jovem e o vendedor dar uma volta no pátio da concessionária.
– Joana, sabe qual é a grande diferença entre um carro novo e um seminovo?
– Um é melhor do que o outro. – disse a moça sem hesitar. – Por isso é mais caro.
– Não obrigatoriamente, Joana. – falou o rapaz com condescendência. – Tudo depende do carro. Mas, a questão não é essa. Todos sabem que carros novos dão menos trabalho de manutenção do que os seminovos. Porém, um carro novo é um carro sem história.
– E o que importa a história?
– História é muito importante, Joana. Na verdade, é essencial. Por exemplo, veja este carro. – disse ele apontando para um compacto de cor cinza. – Este carro tem cinco anos. É um carro com acessórios bacanas e não tem muita quilometragem. É um veículo que não lhe dará problemas. Mas, antes de tudo, ele tem uma bela história.
– Como assim? – perguntou curiosa.
– Este carro era de um casal. Eles o compraram depois de anos de casamento. Compraram com muito esforço. Pagaram em muitas prestações. Eles o compartilhavam diariamente. Várias vezes, ele o usava. Outras, era ela quem dirigia. Foi neste carro que trouxeram o primeiro filho do casal para casa. Você devia ver como eles estavam emocionados quando o trouxeram para a troca. Este carro tem mais do que peças. Ele também, possui sonhos realizados. Não é apenas um carro bem cuidado, mas foi um veículo que transportou muitas histórias…
– De amor? – completou a moça fitando os olhos do jovem vendedor.
– Sim. De amor. – respondeu o rapaz enrubescido.
A moça matutou um pouco. Entrou no carro, sentiu a direção. Saiu e acariciou o capô, tudo, silenciosamente.
– Vamos lá dizer para o papai que quero este. Nada melhor do que começar onde houve muito amor, não é?