Os detalhes

04 de abril, 2016 - por Max Franco

Dizem que o diabo está nos detalhes.
Pois, eu digo que o tinhoso não está só.
O detalhe é o maior condomínio que existe.
Tanta coisa ocorre – todos dias, todas as horas – bem debaixo do nosso nariz e mal notamos, ou nem sequer vemos.
Hoje me sucedeu algo tão irrevelante que é digno de nota.
“Algo”?
Talvez nem mereça alcunha de “algo”. Foi uma migalha de um acontecimento, um fiapo de situação, coisa mixuruca que mal se apercebe.
A BMW estava no estacionamento do supermercado. Carro dessa natureza não entra e para. Carro assim desfila e posa. Então, estava lá, a máquina, posando para os suspiros alheios. Ostentando o seu glamour turbinado.
Foi aí que veio o garoto, um funcionário do estabelecimento que catava aqui e ali carrinhos largados por toda parte e os empurrava para onde eram guardados.
O garoto seguia na sua lida, quando, de repente, parou. Simplesmente empacou no meio do estacionamento.E, parado, ereto como o poste ao seu lado, ele se deu conta da BMW à frente. Dizer que o jovem olhou para carro é uma blasfêmia comparando com o que, de fato, houve. O rapaz, na verdade, lambeu o carro com os olhos. Aquilo não foi uma olhada, foi uma tomada de posse. Quem acompanhasse os fatos, perceberia a sua intenção, que não era de inveja ou ambição, mas luxúria. Ele avistava o veículo, objeto do seu desejo, como o indiscreto olharia para a Luana Piovani.
Então, ele ficou ali, meio abestado, no meio de uma epifania, piovanando cada centímetro da BMW.
O que aconteceu a seguir foi o inusitado. O rapaz, meio slowmotion, ergueu a mão e acariciou o capô do carro. Não foi um carinho comum, foi massagem, mais que massagem, foi carícia. Uma carícia com parentesco daquelas sexuais, das mais íntimas, muitas vezes ocultas no escuro de uma sala de cinema.
Aquele afago proibido me escandalizou. Ele sabia que lhe era vetada essa aproximação leviana. Ele sabia que poderia até ser punido pelo atrevimento. O dono, caso o flagrasse no ato libidinoso, poderia reagir violentamente. Alguém decerto diria que fora assédio.
Eu me dei conta e percebi tudo. Ele olhou para trás e viu que o fitava. Não me olhou nos olhos. Baixou a visa e, juro pode deus, corou.
Entrei no meu carro, muito menos impressionante, e segui viagem. O ato impudico do garoto, porém, me cutucava os pensamentos.
– Quantas vezes estamos tão perto, mas tão longe das nossas mais desejosas quimeras?
Perto – tão perto – ao alcance da mão, entretanto distantes quilômetros.
Feliz aquele que pode ter sonhos e acordar um dia na cama com eles deitados ao lado.
Feliz quem possa cevar sonhos possíveis, paqueráveis, conquistáveis.
Nada melhor, afinal, do que sonho potencial. Sonho que corresponde ao olhar, ri do seu gracejo e curte as suas fotos na rede social. Sonhos possíveis já são felizes antes de sê-lo.
Em compensação, pouca coisa incomoda, machuca e fere mais do que a certeza da impossibilidade, do que a consciência de que o sonho é gratuito, ingrato e vão. Que o sonho inacessível está ali, ao alcance da mão, mas nunca – decididamente nunca – será nada mais que mero sonho.