Os cajus e o deus de Einsten

29 de novembro, 2019 - por Max Franco

Não sei se ocorre a todos, mas – a mim – acontece costumeiramente.

Às vezes, o que me sucede, até a coisa mais corriqueira, acaba repercutindo de forma complexa e fica ricocheteando erraticamente na minha cabeça. Tenho até inveja desse olhar despojado sobre a Vida, mas meus olhos tendem a sempre enxergar tudo com mais cores do que talvez tenham. Tenho olhos vangoghianos, talvez.

Foi o que se deu naquele dia. Vinha na estrada e, como gosto, em tempos de colheita de cajus, costumo parar para apreciar as frutas em uma barraquinha que fica no meio do caminho até Fortaleza. Naquele dia, os cajus estavam ainda mais doces e suculentos. A Patrícia gosta de servi-los frios. Ela tira da geladeira e os deposita num prato limpinho, garfo e faca. Geralmente, como uns três. Mas, naquele dia, não resisti e devorei quatro. Satisfeito, retomei a estrada que conheço tão bem.

O fato é sempre apenas um fato, mas só até o momento em que começamos a atribuir algo a ele. Fiquei, portanto, atinando para o milagre que é o fruto. Imagina todo o processo até a árvore existir. De uma pequena semente virar uma grande árvore e essa árvore sugar do chão todos os elementos para gerar um fruto. E são tantos frutos diferentes, multicores, com todo tipo de forma e sabor. Em outras palavras, um milagre!

Da mesma forma que é um milagre qualquer tipo de Vida. Como também é milagre o sol e também a lua. Eu também, seguindo o mesmo pensamento, portanto, sou milagre. E tudo que vejo, toco, sinto. A Vida, o planeta, os planetas, o universo… Tudo milagre.

Mas se tudo é milagre, o milagre é natural e não sagrado, único e escasso. Ou o natural é sagrado, especial e divino?

-Spinoza!

-Quem?

Spinoza foi um filósofo revolucionário que viveu na Holanda no século XVII. Baruch Spinoza era de família judia e pagou todo o preço pelo pensamento que professava. Spinoza é mais um daqueles que, apesar da grande obra  que deixou como legado, acabou na miséria. Como ele, Van Gogh, Mozart, Kafka e muitos outros. Uma gente pagou pelo seu ineditismo e pela sua vanguarda. Uma rara gente que criou uma obra muito à frente do seu tempo.

Quando perguntado se acreditava em Deus, Einstein disse que acreditava no “Deus de Spinoza”.

Essa é uma daquelas respostas que pode trazer todo tipo de interpretação. Para Spinoza, Deus não pedia liturgias nem doutrinas, nem templos nem religiões, nem sacerdotes nem mandamentos. Deus está em tudo e tudo é expressão de Deus. Não há milagres, porque tudo é milagre. Então, tudo é natural, mesmo o que não sabemos explicar. Não sabemos explicar porque ainda não sabemos, mas – quem sabe, no futuro – saberemos. Da mesma forma em que, um dia, outrora, chamamos de deus o relâmpago ou o trovão e depois descobrimos que são fenômenos naturais, o mesmo ocorreria com tudo que ainda não explicamos.

Se tudo é Deus ou expressão de Deus, eu também o sou. E você. O ar que respiramos e e a formiga que caminha ali na frente. Então, estou coligado a tudo e em comunhão com tudo. 

Todos os traumas, portanto, só existem porque rompemos esse alinhamento? 

Para Spinoza, toda vez que nos desconectamos entre nós e com a natureza que nos circunda traímos de alguma forma esse Deus do qual fazemos parte.

É isso que ocorre, não? Nós quebramos o processo, erramos a coreografia. Nós desafinamos na música. É um descompasso essencial. Era para sermos mas não somos. Devíamos ter sido e não fomos. Somos o quê? Deus. Muito prazer, meu nome é Deus. E você? Deus também! Olha que coincidência! Pois o Deus que eu sou saúda o Deus que você é. Sejamos deuses juntos e vamos coexistir em harmonia entre nós e com a natureza. Uma natureza que não é estranha a nós. Na verdade, é uma natureza da qual fazemos parte. Uma natureza que é feita da mesma matéria-prima.  Nós somos natureza. Nós somos da natureza de Deus. Somos divinos e naturais, todos nós. Somos naturalmente divindades. 

Mas como podemos fazer para nos reconectar? 

Primeiro – talvez – precisemos fechar os ouvidos para todo aquele que se autoproclamar tradutor ou porta-voz de Deus. Eu não eu os indiquei. Você indicou? Por que eles são mais do que eu ou de você? 

Depois, precisamos ouvir a voz da natureza. Precisamos correr para o mato, para o mar, para as montanhas, para a arte, para os amigos e para os amados. Precisamos encher os pulmões de ar puro e os ouvidos de cantos de pássaros livres. Precisamos fugir do asfalto e dos edifícios espelhados. Precisamos voltar ao ventre da natureza para nos sentir o que nunca deveríamos ter deixado de ser: parte dela. Nós não deveríamos pensar em preservar a natureza. Deveríamos pensar em nos preservar. Porque tudo somos nós. 


Há esse texto que é atribuído a Spinoza, mas não sabemos se de fato foi ele que escreveu. Entretanto, sem dúvidas, o conteúdo está bastante alinhado ao pensamento de Baruch Spinoza.


Vale conferir!

https://www.youtube.com/watch?v=RDm_omL-moY