O segredo

20 de janeiro, 2019 - por Max Franco

Eu cogitei falar, mas preferi a mudez.

Ele tinha 20 anos e um carro bacana.

Não conversamos mais de 15 minutos, exatamente o tempo necessário para que me deixasse em Guarulhos. Estranhei o sotaque e ele me disse era do interior de Minas, “da roça”, como enfatizou. Já estava em São Paulo há dois anos. “Tenho emprego fixo, sabe? Mas faço Uber para aumentar a renda. E toda vez que vou na minha cidade, levo uns produtos para vender. Eu me viro bem!”

Pedro Henrique saiu de Minas para morar com um aparentado em São Paulo, “porque queria algo mais da vida”. Como deixou claro. Foi para São Paulo com cem reais na carteira, uma mala sem rodinha e coragem no coração. Em pouco tempo, arrumou trabalho, carro e namorada. Todo mês, manda uma grana para mãe. “Sua mãe deve estar orgulhosa”, eu disse.

Ele suspirou. “Minha mãe me criou sem ajuda de ninguém. Não conheço meu pai. Foi ela que mais me incentivou a ousar na minha vida. Meus amigos me chamaram de doido, mas agora muitos deles estão aqui também tentando a vida. Vieram depois que viram como estava me dando bem!”.

Pedro emanava otimismo e vitalidade. E, mais do que isso, Pedro exprimia uma fé inabalável na vida. “Sabe o que é, Professor? Minha mãe sempre me diz: mais do que as conquistas, filho, o que importa é o caminho. É importante valorizar o caminho!” A mãe dele citava Shakespeare e talvez nem soubesse.

Quando desci do carro, fiquei matutando sobre a rápida conversa com o rapaz. Percebi que a sensação podia ser definida como alguma coisa parente da saudade. Isso mesmo: eu fiquei com saudade de mim. Saudade do garoto de 20 que outrora fui e que, também, era contaminado de esperança. Eu também fora um sujeito acometido de paixões e um postulante convicto dos bons sentimentos da raça humana. Eu – também – acreditara sem reservas nas pessoas e, principalmente, em mim mesmo. Foi só depois, bem depois, que percebi que nem as pessoas seriam merecedoras de tanto crédito, como, da mesma forma, nem eu mesmo seria. É que gente tem essa potencialidade intrínseca de desapontar. Não há nada mais decepcionante do que gente. Já plantas, pedras e bichos jamais deixam de cumprir suas promessas. Não há hipocrisia fora da raça humana.

Mas, eu não disse nada para o rapaz. Não pinguei nenhuma dúvida no seu copo de felicidade. Não rasguei o papel de parede colorido do seu futuro projetado. Como o faria? Além do mais, a vida poderá agir diferente com ele e ele agir diferente com a vida. Não seria logo eu o profeta de sinistros para o jovem. A vida, afinal, atua de forma diversa com os indivíduos. Me resta, portanto, torcer para que ele não extravie essa alma pela estrada e, principalmente, essa postura ativa, corajosa e alvissareira.

“A vida é feita de escolhas, professor! Não há segredo. Basta agir direito e fazer as escolhas certas! Depois, tudo funciona perfeito. A gente atrai, sabe? Tudo vai dar certo, certeza!”.

“Claro, Pedro!”, eu disse. Mas o que realmente pensei foi “Não mesmo! A vida não é um processo ininterrupto de causa e efeito. Acontecem – o tempo inteiro – coisas ruins a pessoas boas e coisas boas a pessoas ruins. Não há sentido algum. Não há muito controle. Não há matemática nessa vida repleta de variáveis. A vida tem um martelo na mão, mas também tem flores. Ela distribui flores para alguns e marteladas para outros sem muito critério. Mas você está totalmente correto em pensar que basta trabalhar e se esforçar que tudo vai dar certo para você, Pedro. Não há outra coisa a pensar! Mas, cuidado que peito aberto vira alvo fácil.”

Repito: foi o que pensei, mas não foi o que disse.  Afinal, ele tem apenas 20 anos e ainda padece de juventude aguda. Mas – como sabemos –há um remédio infalível para juventude: um troço implacável chamado tempo.

Não obstante, é claro que posso estar errado. (Inclusive esse fenômeno tem ocorrido amiúde!)

Na verdade, poucas vezes torci tanto para estar completa e profundamente equivocado.

 

 

Eu aprendi que todos querem viver no topo da montanha, mas toda a felicidade

 e crescimento ocorrem quando você a está escalando.”     

                                                              (William Shakespeare)