O palhaço sem circo

29 de agosto, 2017 - por Max Franco

Marcos e Roberto eram amigos fazia anos.
Eram amigos desde o tempo do telegrama ou da velha máquina de escrever de escrever, dos shows do Legião e dos papos intermináveis na calçada a fim de decifrar o mistérios do mundo ( a vida extraterrestre, a possibilidade do sobrenatural e a cabeça das garotas). Era o tempo da amizade pela amizade, e não pelo networking. Não havia networking naquela época, da mesma forma que não havia a palavra networking.
Marcos e Roberto eram amigos desde a época que amigo não era meio para nada. Amigo era fim.
– Então, tenho o privilégio de ter o meu melhor amigo como biógrafo? – perguntou Marcos, sorrindo debilmente.
– Não é biografia, é epitáfio. – soltou jocosamente Roberto.- Vou ter de ler alguma coisa na sua missa de corpo presente. Melhor se for algo elogioso. Para dizer a verdade, nada me ocorre, de bom. Melhor, então, pedir a você. A não ser que a sua famosa modéstia não o permita.
– Missa… Uma missa para um ateu?! – zombou Marcos. – Para que serve?
– Para os vivos. Você sabe para que servem eventos de morte. Para reunir a família, aprender piadas novas e santificar o defunto. Não seja desmancha-prazeres e deixe a turba se divertir um pouco. Nada como uma boa morte para louvar a vida.
– Pois, diga lá. Sobre o que você quer falar? Sobre as minhas glórias? Estão todas enterradas. Você precisará ser arqueólogo para escavá-las.
– Nada disso! Tudo isso é trivial. Quero saber é da mansão dos mortos, da noite escura, da caverna do dragão…
– Afinal, é no fogo que o metal é moldado.
– É na dor que um homem é forjado.
– A Grande Escola.
– A Angústia-professora.
– A viagem de onde muitos não voltam.
– Ninguém, de fato, volta. Aquele que volta é outro.
– Você era outro? – inquiriu Roberto, desafiando o amigo. – Parece tanto com este…
– Este é aquele reformado, customizado e esculpido pelo cinzel das circunstâncias.
– Pedra dura pede mais pancada?
– Pediu.
– E doeu?
– Doeu mil agonias por segundo.
– O quê?
– Todas as perdas. Mas, há ganhos que doeram mais.
– Você parece muito taciturno para um palhaço.
– De fato. Mas, a vida cobra promissórias, mesmo não tendo sido um palhaço qualquer.
– Eu me lembro. Você era ridiculamente glorioso. Você criou espetáculos memoráveis. tournées festejadas, números emblemáticos, comédias comentadas e imitadas até hoje. Você não só fez muito pelo Circo.Você era a cara do Circo.
– Até que cometi o maior pecado que um palhaço pode cometer.
– A piada foi mais pesada do que deveria. Tempero demasiado.
– Palhaços só deveriam fazer rir, não é?
– Jamais chorar. E como os circos não são tão diferentes, houve o Circo sem palhaço. Quem acreditaria? Como um Circo ficaria logo sem o seu maior palhaço?
– Pior foi o palhaço sem o Circo, meu amigo! Você bem sabe.
– Eu sei. Mas, o mundo é maior do que o Circo…
– O Circo é o mundo do palhaço! Sabe lá como são noites a fio de olhos arregalados elaborando palhaçadas que não mais teriam picadeiro? Dos sonhos, mil sonhos, sonhos diários, sonhos oninoturnos? E acordar ainda escutando o eco dos risos e vendo a fumaça das risadas para despertar num desespero oco, mudo e opaco? Maldito despertar. Melhor teria sido dormir uma noite eterna, eu pensava.
– E a companhia?
– A companhia toda me desacompanhou. Você sabe. Palhaços melancólicos não atraem público. Principalmente, o respeitável.
– Mas, você ajudou a tantos? Emprestou grana até quando não tinha tanta, deu moral à trapezista, amparou o malabarista quando ele não teve mais onde morar… Muitos pediam a sua ajuda, queriam estar perto…
– A luz, meu amigo! Tudo tem a ver com a luz. Quando os holofotes estavam virados para mim, todos queriam estar perto, como mosquitos em dia de chuva. Sempre sobrava um pouco de luz para eles. Depois, quando as luzes se apagaram…
– Mas, eles sabem do seu legado. Claro que sabem. Ninguém fez pelo Circo o que você fez. Seus shows ficaram. São replicados todos os dias. Você deixou herança onde poucos deixam. A maioria repete burocraticamente velhas fórmulas. Você, não. Você quebrou tudo. Até demais.
– Mas o que importa, Roberto?! – disse o velho palhaço entre lágrimas. – Ninguém vai saber. Ninguém mais me cita. Não mereço nem sequer o prestígio das autorias. Virei um fantasma com o incômodo de estar ainda vivo.
– Há sempre aqueles que sabem. Silenciosamente, sabem. Não haverá homenagens nem reconhecimentos. Mas, no íntimo, sabem. E o principal é que você sabe. As memórias estão todas aí e há muitas que são felizes. Isto é patrimônio seu. Tudo que você viveu, as pessoas que fez feliz e que, mesmo sem saberem, se alegrarão com tudo que você fez. Você, apesar de tudo e por causa de tudo, meu atormentado amigo, é, sempre foi, uma fábrica de sorrisos.
– Pois escreva, meu caro, no meu epitáfio e na minha lápide porque a hora se aproxima. Hora de estar pensando, você sabe em quê?
– No picadeiro.
– É só o que importa para um palhaço, o picadeiro.
– Eu sei. E você é o Palhaço. Sempre foi. Sempre será.
– Eu estarei pensando. A gente geralmente sonha com aquilo que pensa antes de dormir. Não é? Se a morte for um sono eterno – quem sabe – me sonharei no picadeiro. Isto deve ser o paraíso. Bem melhor do que este quarto de hospital…
– Pois me diga, o que escrevo, querido amigo?
– “Palhaço fui e fiz rir. Valeu a pena.” – disse o velho palhaço. Depois, vagarosamente, fechou os olhos, sorriu e morreu.

Para Jerry Lewis, in memoriam.
Que muito me fez rir.