O julgamento final

22 de junho, 2016 - por Max Franco

Michelângelo, anos depois, volta para a sua Obra-prima: os painéis da Capela Sistina.

Desta vez, ele deseja algo mais dramático. Os anjos no centro do afresco anunciam: chegou a hora! O apocalipse, o armagedom. O Cristo, um Apolo raivoso, volta triunfante e traz a conta consigo. Os maus pagarão. Os bons receberão o seu quinhão, o prêmio eterno. Os mártires, lá em cima, merecerão mais ainda. São os mais fiéis, como não receberiam mais pelos sofrimentos pelos quais passaram?
O homem daquela época temia o tempo inteiro. O fim do mundo vivia no seu imaginário e poderia acontecer a qualquer hora. Ele se persignava. Achava que não ganharia o Céu. Tinha pavor desse Julgamento. Deus era justo, mais do que bom, e vingativo, mais do que benevolente. O purgatório já seria alguma vantagem.
Hoje, Deus é Amor. Principalmente para uns. Deus os ama e entende. E entende tanto que me ama, ou ama tanto que entende. É um amor especial, quase exclusivo.
Já, sobre os demais, o resto da humanidade, eu não sei. Deus ama comedido e tem lá suas preferências. Por mim, por exemplo.
Aos outros, o inferno, labaredas e ranger de dentes.
A mim, a paz postmortem, o paraíso ao som de arpas tocadas pelos anjinhos. Eu mereço.
Até tenho defeitos. Claro que tenho. mas, todos são justificáveis. Deus os compreende.
O Julgamento final virá e os maus terão Caronte, o barqueiro – armado com seu remo – como uber.
Eu terei upgrade e partirei na ala executiva, senão primeira classe. Porque eu mereço. Mereço nada menos do que camarote na vida eterna.
Os outros, não sei.
Afinal, os outros têm os piores pecados do mundo. Pecados sujos-sujos, de qualidade vil. Pecados dos mais baixos. Pecados terríveis, medonhos, imundos, execráveis. Pecados de natureza inafiançável. Pecados que encabulariam a mais ordinária das meretrizes.
Os outros não prestam para o Céu que eu vou.
Os pecados alheios não têm explicação. Os meus são quase louváveis.
Michelângelo, o divino, caso vivo, decerto, me pintaria nos sétimos céus, e os outros nos quintos dos infernos.
Porque Deus me entende, mas julga os outros.
Eu mereço.
Já os outros, malditos, os outros pagarão.