O carro guinchado e os desígnios dos céus

27 de agosto, 2019 - por Max Franco

Foi aqui que deixei o carro, logo em frente ao Fatto Mansões, condomínio onde fico quando estou em Campinas. Não havia lugar para estacionar e decidi deixar (só por um pouquinho) neste espaço sombreado, agradabilíssimo, que – por acaso – expunha essa placa antipática de “Não estacione”. Eu estacionei. Sempre fui de empurrar a porta que dizia “puxe”. É do meu dna essa mania cotidiana de microdesobediências civis. O fato é que estacionei e me dei mal. Meia hora depois voltei para estacionar em outro lugar e o porteiro me presenteou com essa: “Os amarelinhos levaram, seu moço!”. “Para onde?”, perguntei aturdido. “Só deus sabe!”
Perguntei a deus, mas ele manteve a sua antiga mudez para comigo. (Ou a minha notória surdez em relação a ele). Dei um jeito e achei o lugar. Longe. Aqui chamam de Itatinga, um logradouro que os locais costumam negar que frequentam, moram e se recordam. Contrariado, fui lá ter com meus algozes.
“Amarelinho” pode parecer para mais alguém – que não é da região – um nome fofo. Aqui em Campinas, preferem encontrar o diabo do que um amarelinho no caminho. Amarelinho nega a fofura do seu apelido. Amarelinho é aquele cara demoníaco que fiscaliza, multa e (até) reboca o seu carro alugado defronte ao prédio onde está hospedado só porque tinha uma placa “não estacione”.
Fui lá prostituto da vida para o bairro das prostitutas. Foi uma espécie de adaptação ao ambiente.
Para encurtar uma história nada curta, tive que ir e voltar duas vezes, paguei mil dinheiros em uber, multas, estadias, guincho…
Estou contando tudo isso não com a intenção de protestar contra a indústria da multa etc e tal. Estou contando tudo isso por causa do sujeito do guincho.
– Ceará? – perguntou ele sorrindo. – Você é do Ceará?
– Sou… – respondi já esperando que ele me pedisse para contar uma piada.
– É a terra dos meus filhos.
– Sua esposa é cearense?
– Não. Meus filhos são.
Foi aí a parte boa dessa maçada: ouvir a história do Cláudio foi desses presentes que ganhamos nos momentos nos quais menos esperamos (e nos lugares também!).
– Eu estava rebocando um carro. A dona apontou defeito. O carro não dava ignição de jeito algum. Ela se sentou ao meu lado e sem nenhuma razão me contou a história da irmã no Ceará. Ela contou que a mulher tinha dois filhos de pais diferentes, muito novos. Contou também que ela não os queria. Eu disse de pronto: eu quero.
– Seus filhos são adotados? Lá do Ceará?
– Exatamente. Eu e minha mulher queríamos filhos há anos. Tentamos de tudo. Tratamentos caros e complicados para nada. Eu disse que queria as crianças. Ela telefonou para a irmã e eu peguei um avião. Olha as fotos deles aqui. Depois, a minha mulher engravidou e hoje, 8 anos depois, tenho 3 filhos maravilhosos. Foi a mão de Deus, entende? Eu não acreditava em Deus e, depois disso, passei a crer. Sabe o carro que não pegava? Quando deixei o veículo na casa dela, o carro pegou. Juro por Deus. O carro simplesmente pegou. Você entende?
– Eu entendo. – disse e a minha cabeça viciada no racional pensou “coincidência”!
– Foi a mão de Deus! – disse o homem que guinchou meu carro. – E meus filhos são as luzes no meu coração. Não sei o que seria de mim sem eles.

São as coisas da vida que a gente não explica. Ou explica, sei lá.
Pois eu abracei o homem, felicitei-o, paguei minhas contas, peguei o carro e vim para o apartamento com essa história na cabeça.
Ao chegar, estacionei noutro lugar.