O arsenal do storytelling

16 de janeiro, 2018 - por Max Franco

Sem metáfora, fora!

“Estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol
Quando você entrou em mim como um sol no quintal.”
Belchior

“Eu estava triste até que você apareceu”.
Pronto! Eis o que a citação acima quer dizer.
Mas, me diga, caro leitor, qual das duas comunica melhor?
Veja só: eu não estou perguntando qual comunica mais rápido, mas qual comunica com mais assertividade? Estou perguntando qual dialoga melhor.
A resposta é fácil.
Por isso, os poetas estão sempre num patamar acima de nós, meros mortais.
Aprendemos na escola que entre os pontos A e B, o caminho mais rápido é sempre uma reta. Porém, nem sempre o mais rápido é só o que importa na vida humana. Retas, afinal, são sempre tediosas. São nas curvas sinuosas e nas estradas entrecortadas por túneis, depressões e colinas que vemos as melhores paisagens e conhecemos as maiores emoções de um percurso. São as surpresas que encontramos numa estrada que a tornam interessante.
Se objetividade fosse solução, os grandes oradores da humanidade não teriam feito ou fariam tanto uso da metáfora. Jesus, por exemplo, se comunicava com parábolas, tão boas que ainda são citadas e repetidas 2 mil anos depois, e com vigor para mais alguns mil. Parábola – como sabemos – é a antítese da reta.
Palavras são poderosas, você já sabe. Poucas coisas motivaram mais o combalido inglês no período da segunda guerra do que os discursos de Wiston Churchill. Quando a Inglaterra se viu acuada por Hitler depois da derrota e da enorme retirada de Dunkirk, houve muita pressão para que se negociasse com o regime nazista. É aí que Churchill se vale de uma metáfora que acabou ficando famosa: “Não dá para se negociar com um tigre quando a sua cabeça está na boca dele!”. O que precisa mais ser dito depois de tal analogia? Podemos até dizer que o mundo foi salvo por uma metáfora.
Churchill foi um mestre do storytelling. É bem verdade que nem sempre contava as histórias mais verdadeiras. Mas, era um exímio artista da palavra, como podemos observar nos seus discursos inflamados com os quais ele conseguiu motivar os políticos, o exército e a população a continuar resistindo ao nazismo. Por quase dois anos, afinal, a Grã-Bretanha lutou praticamente sozinha contra uma das mais formidáveis máquinas de guerra já aparelhadas na história humanidade. Churchill foi agraciado com um Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra, que traz seus históricos discursos “Sangue, sofrimento, lágrimas e suor”, “Nós Lutaremos nas Praias” e “Este foi o seu melhor momento”. Quando John F. Kennedy concedeu a Churchill um título de cidadania honorária, o presidente afirmou: “ele mobilizou a língua inglesa e a enviou para a batalha.”
É com outra analogia poderosa que mais um dos grandes oradores do século XX começa o seu mais célebre discurso: “I have a dream”:
“Eu digo a vocês hoje, meus amigos, que embora nós enfrentemos as dificuldades de hoje e amanhã. Eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.
Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença – nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais.
Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos descendentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade.
Eu tenho um sonho que um dia, até mesmo no estado de Mississippi, um estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça.
Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje!
Eu tenho um sonho que um dia, no Alabama, com seus racistas malignos, com seu governador que tem os lábios gotejando palavras de intervenção e negação; nesse justo dia no Alabama meninos negros e meninas negras poderão unir as mãos com meninos brancos e meninas brancas como irmãs e irmãos. Eu tenho um sonho hoje!
Eu tenho um sonho que um dia todo vale será exaltado, e todas as colinas e montanhas virão abaixo, os lugares ásperos serão aplainados e os lugares tortuosos serão endireitados e a glória do Senhor será revelada e toda a carne estará junta.
Esta é nossa esperança. Esta é a fé com que regressarei para o Sul. Com esta fé nós poderemos cortar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé nós poderemos transformar as discórdias estridentes de nossa nação em uma bela sinfonia de fraternidade. Com esta fé nós poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, para ir encarcerar juntos, defender liberdade juntos, e quem sabe nós seremos um dia livre. Este será o dia, este será o dia quando todas as crianças de Deus poderão cantar com um novo significado. Meu país, doce terra de liberdade, eu te canto.”

Este é um fragmento do histórico discurso do pastor Martin Luther King Jr. O famoso ativista e pacifista americano falava da necessidade de união e igualdade entre negros e brancos. O discurso, recheado de metáforas e figuras de linguagem, foi realizado no dia 28 de agosto de 1963 no Lincoln Memorial em Washington, D.C. como parte da Marcha de Washington por Empregos e Liberdade. Luther King professa este discurso que foi feito para mais de duzentas mil pessoas que apoiavam a causa e acaba se tornando um divisor de águas na história do Movimento Americano pelos Direitos Civis. O discurso foi considerado um dos mais importantes na história e foi eleito o melhor discurso americano do século XX numa pesquisa feita no ano de 1999.
São palavras como essas que mudam a história.
Hitler e o seu ministro da propaganda, Joseph Goebbels, bem o sabiam. Palavras movem!
Quem sabe domar as palavras e usar metáforas bem construídas sempre possui um arsenal poderoso de persuasão. A metáfora é a ilustração para adultos e o seu uso é uma das maiores diferenças entre um bom texto e a escrita medíocre.
Um texto sem metáforas não é texto, é bula de remédio. Nem relatórios deveriam viver sem metáforas. Escrever sem metáfora é o mesmo de cozinhar sem temperos. O sabor de um bom texto está na riqueza das suas complexidades e comparações, nos jogos de palavras, nas acrobacias da linguagem.
No texto, a assertividade no ato de veicular a informação é o gol, tudo bem. Mas, o drible, a jogada de efeito é a metáfora, que sempre funciona como o melhor atalho para a compreensão de qualquer texto, porque ela não conversa apenas com o racional do interlocutor, mas também com as suas emoções. Pela sua natureza subjetiva, a metáfora convida o leitor a sair da sua zona de conforto e ser cúmplice da manufatura do texto, afinal, ela pede também a interpretação do interlocutor.
A metáfora, afinal, quando bem empregada, faz cócegas na imaginação e nos faz enxergar até o que pode não ter sido visto, mas sentido. Quer ser eficiente na sua comunicação? Esqueça um pouco da objetividade e fale com o coração. Na verdade, fale sem falar. Seja generoso e deixe as palavras brincarem.