O amor pelas histórias

23 de abril, 2019 - por Max Franco

Dizem que gente ama histórias desde o momento que pôde ser chamada de gente. Deve ter sido algo em torno dos 70 mil anos atrás, no período denominado “Revolução cognitiva”.  Para o historiador queridinho do momento Yuval Hahari, tudo ocorreu meio por acaso: os sapiens desceram das árvores, se tornaram bípedes e, com esse super-poder, começaram a forjar e usar ferramentas. Uma delas fez toda a diferença: o fogo! Com o poder sobre o fogo, a caça passou a virar churrasco e, consequentemente, o intestino humano – menos exigido -precisou apenas de mais alguns milhares de anos para diminuir. Sobrou proteína para o quê? Se você pensou “cérebro”, isso demonstra que você sabe usar o seu. Com o crescimento do cérebro, não demorou tanto para inventarmos a linguagem, e, imediatamente, as histórias.

Para Carlo Ginzburg, a primeira história contada deve ter sido um relato curto, mas quase pedagógico: “Algo passou por aqui!”, avisou o caçador mais experiente para o novato. O ser humano, nesse período, fazia apenas referências objetivas, somente sobre coisas que poderia ver e tocar. Mas, não demorou muito para o objetivo inspirar o subjetivo e algum Sapiens mais criativo começar a falar do “espírito da árvore” ou a “alma do lobo”. A partir de então, as comportas estavam abertas para que pudéssemos criar qualquer coisa, monstro, mito, lenda e até religiões fazendo uso de narrativas subjetivas. Hahari ainda cita a possibilidade da comunicação inter-subjetiva, quando ficções subjetivas são compartilhadas por grupos cada vez maiores.

Para Hahari, o que fez o ser humano se tornar humano e, com isso, ocupar o ápice da pirâmide dos seres vivos foi e –  ainda é – a capacidade de cooperarmos em grande escala. E isso só ocorre porque colaboramos a partir de ficções. Empresas, dinheiro, religiões, times de futebol, países… tudo ficção. Tudo criado a partir do engenho e da imaginação humana. Em outras palavras, nada é mais básico, fundamental e ancestral para o ser humano do que o tal do storytelling. Nós nos relacionamos com o mundo por meio de narrativas, há milhares de anos, hoje, amanhã, nos próximos séculos.

O que isso tem a ver com os vingadores ou com GOT?

-Tudo!

Por que milhões se acotovelam em filas na busca dos ingressos para o último filme (Vingadores – Ultimato) da franquia Marvel?

Por que milhões assinam canais de tv (e ficam acordados roendo as unhas) até tarde da noite aos domingos para conferir o novo episódio de Game of Thrones na sua última temporada?

Por que milhões contam os dias para a estreia da terceira temporada de “Casa de papel”?

Pela mesma razão que os nossos ancestrais esperavam com igual ansiedade pelo retorno dos caçadores. Porque desejávamos alimento para o corpo e para a alma. Era isso, afinal, que esses grupos rudimentares desejavam ardentemente ao redor das fogueiras. Queriam comida, mas não só comida, queriam diversão e arte. Queriam fantasias e histórias fantásticas sobre coisas, bichos, terras, heróis e aventuras. Queriam risos, dramas, emoções… Queriam o que queremos e sempre vamos querer: as melhores histórias.

É maravilhoso que vivamos um momento no qual essas narrativas merecem tanta inventividade e produção.

É maravilhoso que tenhamos tantas histórias – tão boas – para acompanhar nessas atualidades.

Nesse século XXI, mesmo com tantas demandas, e distrações, as ficções estão em plena forma, sem nenhum vestígio de que perdem alguma força. De tal forma, que os storytellers da humanidade nunca tiveram tanta grana, poder e influência do que no momento atual.

Como aquele antigo caçador se sentiria caso pudesse saber o que a sua primeira história acabaria se tornando?