Nada é por acaso

23 de maio, 2016 - por Max Franco

Foi recentemente que ouvi essa revisitada afirmativa de um amigo-à-cata-de-algum-consolo. Observei, com discrição, que ele repetia a máxima, que já pende das bocas como um clichê puído de tão usado, como uma espécie de mantra para lhe confortar a ferida ainda aberta.
Eu, particularmente, como ando meio acometido de realismo e, por isso, nada afeito a cozinhar ilusões em fogo brando, considero essa tese um embuste só não maior do que promessas de cama.
Lógico que o Acaso ocorre e ocorre por acaso.
Acaso é troço caprichoso. Ninguém controla. Ninguém prevê. Ninguém determina.
Há também as ocorrências que, de fato, não nos sucedem por acaso. Há sempre aquelas providenciadas por nós próprios e outras mais patrocinadas pela mão alheia. Porém, as demais são da iniciativa do Acaso. Foi ele, o temperamental acaso, que as combinou e algumas cuidadosamente engendradas, talvez até com requintes de crueldade.
Eu já desisti de tentar compreender a vida. Vida é igual à mulher. Não existe para ser entendida. Existe para ser vivida. (A vida e a mulher!)
Acho lindo quem garimpa sentido na vida. Atitude meritosa da minha maior admiração e de aplausos efusivos. Uma vez, enxerguei assim. Depois dos trinta anos e de certo acúmulo de leituras e experiências, entrei num processo paradoxal de nítida miopia e tudo ficou pintado com aquele límpido embaço que me reveste as pupilas até hoje. Não é muito nítido.
Hoje não resvalo mais nessa ladeira. Só loucos perseguem o sentido da vida. E só os varridos o encontram.
O fato que a maioria quer negar é que a vida não tem qualquer sentido a não ser aquele que atribuímos a ela.
Nada ocorre por acaso!? É claro que ocorre! Por que não ocorreria? Quem obrigaria o acaso a não suceder? Quando vamos aceitar o fato de que nada está escrito em livro algum ou predestinado?E que bom que o nosso destino não está grafado em canto algum. Se houvesse, seria um convite ao comodismo. Melhor seria ficar quieto e esperar que o inexorável lhe calhasse. Se houvesse destino, ninguém seria livre de decidir as próprias decisões, e perpetrar os próprios equívocos, e testar os próprios acertos, ou vagar por aí (des)norteado pelas suas dúvidas. Se estivesse, não seríamos livres para optar. Na verdade, não seríamos livres de jeito algum. Valer-se do destino ou de uma prescrição divina é uma necessidade motivada pelo medo. É o desejo de colocar a vida e as suas circunstâncias organizadas em prateleiras.  É a vontade de controle em meio a um processo, muita vez, descontrolado.
Nada foi porque tinha de sê-lo e absolutamente nada será porque terá de ser. Essa é uma mania feia de imputar a Alguém nossas próprias culpas. As coisas, na verdade, acontecem porque alguém o quis, porque você o providenciou ou porque o desgraçado do Acaso conspirou para que se dessem. A vida faz sorteios. Para o bem ou para o mal. Resta-nos lutar para termos as cartelas certas na mão.
Às vezes, inclusive, me bate aquela vontade de gritar a certos ouvidos: Meu amigo, quando vai se dar conta de que não há nada nem ninguém guardado para você?
E que ninguém lhe guia nem lhe conduz a não ser seus próprios pés?
Cabe-lhe, apenas, ter cuidado de pisar correto e torcer para o Acaso não trombar com você na próxima esquina.
A questão é que o “grande público” vive procurando encontrar algum sentido na vida.
Decerto para acarinhar os hematomas na alma, para enganar a fome existencial, para produzir confortos para as dores crônicas e para preencher o grande vazio essencial que nos persegue do berço ao túmulo.
Não há nada de grandioso, épico ou monumental na vida a não ser que você mesmo faça da sua vida algo de extraordinário. (E vá ser médico sem fronteiras em Uganda, ou voluntário da ONU em regiões de guerra, ou espião britânico em produção de Hollywood).
È triste se encarar a realidade e a realidade é que a vida da maioria das pessoas é um saco! Mais do que um saco, é um tédio de tão comum e medíocre. E é justamente para se tentar preencher esse oco que existe toda a indústria do entretenimento, com seus aparelhos cada vez mais sofisticados. E é isso que estamos perseguindo o tempo inteiro: completudes para as nossas lacunas. Algo que nos retire – um pouco – do nosso cotidiano ordinário. Por isso, corremos atrás de filmes, igrejas, estádios, esportes, shows, viagens, amores, bens, emoções.

A gente só busca o que não tem.

PALAVRAS AMADAS – FRAGMENTO DO
PRÓXIMO LIVRO DE CRÔNICAS