Meu antepassado português

27 de novembro, 2016 - por Max Franco

 

 

“Meus antepassados vagaram 40 anos pelo deserto, porque mesmo em tempos bíblicos os homens tinham vergonha de perguntar o caminho.” (Elayne Boosler)

 

 

Odeio crônicas de viagem.

A não ser que sejam do Fernando Sabino ou do Rubem Braga, porque, afinal, é sacrilégio odiar Fernando Sabino e Rubem Braga.

Mas, não sendo alguma dos dois gênios, declaro, sem medo, odeio crônicas de viagem, as quais, em geral, não passam de um pavoneamento pretensioso, nada mais do que uma necessidade de se gabar publicamente, tal qual a foto sorridente ao lado do monumento famoso publicada no site de relacionamentos. Em suma: fanfarronice e literatura com o “l” mais minúsculo que existir.

E a categoria consegue ser ainda mais exímia na sua nocividade quando é petulante ao ponto da pretensão de fornecer dicas de viagem. Para que serve isso quando existe algo tão útil quanto guias de viagem? São completos, pragmáticos, precisos e, principalmente, não se atrevem a se travestir de literários. Podemos sobreviver, portanto, ilesos de maiores prejuízos, sem qualquer informação embutida em relatos insolentes de jornadas turísticas.

Não obstante, rege a maioria das constituições que todo mundo tem direito à liberdade de expressão, por isso, as pessoas podem exercer seu livre arbítrio e, por exemplo, manifestar suas impressões sobre as suas próprias experiências.

É nesse contexto, e apenas justificado por específico argumento, que desejo tratar acerca das minhas estadas em Lisboa.

A questão é que não amei Lisboa. Ao menos na primeira vez em que pus os pés na capital portuguesa. Talvez tenha até sido porque só pisei em terras lusitanas depois de conhecer Paris. Convenhamos: após Paris, qualquer cidade tem que praticar crossfit para tentar se equiparar.

Tom Jobim costumava dizer que o Brasil não é para principiantes.

Portugal também não é. Mais uma herança?

Hoje, no entanto, arrisco a comparar Lisboa com aquela garota que passa na rua, e que, mesmo não sendo, propriamente, destituída de atrativos, não chega a provocar torcicolos nos transeuntes. Entretanto, caso você tivesse a oportunidade de se sentar com ela à mesa, tomasse um cafezinho, batesse um longo papo, você certamente iria se apaixonar. Lisboa é uma mulher com histórias, com conteúdo. Neste papo, você iria encontrar, além de fortes identificações, contrastes para lá de simpáticos, e, portanto, iria ponderar as suas avaliações iniciais. Não seria lá uma grande surpresa se, depois de algum tempo de convivência, você acabasse por achá-la, de fato, bela e fascinante.

Há quem diga que Lisboa é sem graça em dois dias e encantadora em uma semana. Conclusão inteligente.

Depois de tantas visitas e de certo convívio, posso dizer que aprendi a amar Lisboa.

Antes de tudo, porque, em particular e desde a primeira vista, Lisboa me remete ao passado. Não a um passado brasileiro e colonial, mas genético e pessoal. Meu passado particular. Meu passado mais passado. A sensação que me dá é a de um real reconhecimento, como se visitasse à casa do meu avô que ele nunca teve. Não me restam dúvidas de que meu DNA perambulou pelo Chiado e pela Praça do Rossio. Antepassados meus, certamente, vagaram pelas ruas tortuosas da Alfama e do Bairro Alto. Quem sabe se empanturraram com o bacalhau, como hoje faço. E estalaram a língua ao apreciar o sabor do vinho verde, como hoje faço. E derramaram odres de lágrimas acompanhando o fado, como hoje faço. Ou devoraram dezenas dos insubstituíveis pastéis de nata logo na inauguração da famosa casa aberta em Belém, como hoje, gulosa e lastimavelmente, também faço.

Aventuro-me ainda a especular se os meus caros e ignotos antepassados teriam lido os poetas de Portugal. Ou melhor: teriam convivido com algum deles? Às vezes me pego fiando devaneios.

Não teria o Manuel – agora já criativamente batizado, por acaso, compartilhado da mesa do boêmio Camões; ou mesmo, não teria assistido na corte à estreia da Farsa de Inês Pereira, do Gil Vicente, e também afirmado a contragosto que não adiantava mais fazer nada porque, afinal, “agora Inês é morta!”? Não teria, por acidente, esbarrado com o cambaleante Fernando Pessoa pela Rua do Comércio? Ou flertado com a tristonha Florbela Espanca na Universidade de Direito? Ou se indignado com as espirituosidades do irreverente Bocage no Café Nicola?

Não sei. Nunca saberei. Há coisas pretéritas demais. Mas estou certo de que coisas do gênero cometeu o meu celebre antepassado lusitano. Se não, eu não teria, como todo bom português, esse olhar melancólico de imensa saudade de algo que nem sei.

Post-scriptum: Com certeza, posso afirmar: meu tatara-alguma-coisa, o Manuel, travou relações amistosas com o destemido Vasco da Gama. Tal empatia com o heróico português tem de ser algo mais que visceral, mas, ancestral.

Post-scriptum2: Depois, num outro texto sobre a capital portuguesa, poderei fornecer ao leitor interessado algumas dicas de programação extremamente úteis para qualquer turista que desembarque em terras lusitanas. A primeira coisa que um brasileiro precisa saber é que – quase sempre – você poderá falar a sua própria língua. E melhor, inclusive falar das novelas da globo, desde que você não conte o final, já que, lá, há um atraso de uns três meses. Mas é bárbaro! Você poderá entender até os cardápios, coisa rara na Europa. Um luxo! Quanto aos pontos turísticos, aconselho começar com a Torre de Belém. Que, por sinal, fica em Belém! Afinal, foi lá mesmo que tudo começou! Ao menos para nós, é claro. Continuando o tour, sugiro…

 

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