Longe da zona

15 de junho, 2016 - por Max Franco

Quem já fez alguma estrada sabe que há zonas e zonas.

E algumas das quais vale a pena guardar certa distância.

Uma delas é a tal “zona de conforto”.

Eis um lugar que merece as mais antagônicas interpretações. Afinal, não é isso que buscamos do berço ao túmulo, conforto? Não estudamos, trabalhamos, fazemos renúncias, suportamos clientes exigentes, chefes estressados, governo desgovernado, justamente para, um dia, ter direito ao tão sonhado momento de conforto?

Eis a questão, meu caro: o conforto, ao mesmo tempo que nos consola as desditas, também nos sabota. Conforto é a guloseima da vida, a sobremesa farta depois do almoço. É gostosa e bem sabemos que a merecemos. Não obstante, embutido no pacote comprado da taça de mousse, também há gorduras e malefícios. Ela compensa a alma, todavia pode descompensar o corpo. Por isso, que nunca é bom que seja exagerada. Doce é bom e justo, mas moderado.

Conforto também é assim. O que buscamos nem sempre é o que precisamos.

Eu o digo e posso dizê-lo de cátedra, porque algumas vezes na minha vida tive a coragem de fugir dessa zona de conforto quando todos – até eu mesmo – menos esperávamos. Acho que sempre tive isso. Esse sensor que acende toda vez que considero que não há mais nada a ser feito. Que está tudo bem demais e eu deveria ser feliz, me aquietar, estirar a pernas no sofá, me refestelar satisfeito, escolher a programação do netflix e planejar um churrasco para o fim de semana. “É só isso?!”. Esta é a pergunta que sempre me perseguiu. “Acabou?!”

Certa vez, ouvi o Ziraldo contando que o povo mineiro é criativo porque sempre tem montanhas ao redor. É um pessoal que já nasce cogitando o que tem além das montanhas. Eu não sou mineiro, mas acho que criei a próprias montanhas no Ceará. Montanhas sobre o mar? Poético!

O fato é que sempre imaginei o que existiria depois se. O famigerado “se” está sempre lá. Ele é a luzinha que se acende quando tudo parece bem demais. Quando o sofá me chama. Aí, acontece de ouvir outra voz, um sussurro constante, um apelo que vem do túmulo que tenho à frente. Um convite para a possibilidade.

Possibilidades são trágicas. A noção da nossa liberdade e de que boa parte do caminho que fazemos das nossas vidas é escolhido e trilhado pelos destinos dos nossos pés é uma compreensão avassaladora e temerosa. Na verdade, é um terror. Você é condicionado a vida inteira a ser cuidadoso e responsável e previdente e prudente e … De repente, subverter essa linha é atitude mais revolucionária que um sujeito pode tomar. Muitas vezes, parece melhor (e mais salutar) ficar na sua, optar pelo comodismo, esquecer a fuga, maquiar a acomodação é apelidá-la de satisfação ou pior, de felicidade.

Eu sei. Ah, como sei.

Sei com a ciência de quem lá esteve e não só ouviu falar. Sei, e bastante, porque observo as pessoas, meio atônito, ao perceber como incomoda e exaspera quem ousa sair do script esperado. As pessoas são estranhas. Vivem repetindo que a vida deve ser vivida intensamente, que devemos “sair da caixa”, ousar e outras falácias do gênero. Desde que essa intensidade seja exatamente aquilo que a maioria prega e espera. É a intensidade na mesmice.

Sei porque – exatamente – no momento em que digito essas doidivanas linhas as vejo ecoando na minha vida. E, por isso, sei que não é fácil. As montanhas ainda estão lá, são altas, mas eu decidi que vou transpô-las. Só que a mochila pesa às costas, os pés sangram, o sol está a pino e a sombra é rala. Tenho medo de não encontrar água e provisão. Há outros que dependem de mim e isto me tira o fôlego. Porém, não há nem sequer uma história, uma cronicazinha qualquer, um mero poema, um único verso épico tratando de quem ficou na zona de conforto. Na verdade, esta é uma região do mundo árida de histórias, sem mitos, sem heróis, sem lendas. A zona de conforto é um espaço amorfo.

Valerá a pena?

Não sei. Disse o Fernando que tudo vale a pena se a alma não é pequena.

Eu tento sincera e generosamente – todos os dias – não me apequenar diante da vida.

Espero contar como foi quando esses picos que hoje tenho à frente sejam superados. Depois, desconfio, existirão outros, e outros.

Quem tem alguma estrada sabe que há zonas e zonas.

E, algumas, das quais vale a pena se manter distante.

Uma delas é esta tal “zona de conforto”. O lugar da não-história.

Quem tem alguma estrada sabe que há zonas e zonas.

E, algumas, das quais vale a pena se manter distante.

Uma delas é a tal “zona de conforto”.

Eis um lugar que merece as mais antagônicas interpretações. Afinal, não é isso que buscamos do berço ao túmulo, conforto? Não estudamos, trabalhamos, fazemos renúncias, suportamos clientes exigentes, chefes estressados, governo desgovernado, Dunga na seleção, justamente para ter direito ao tão sonhado momento de conforto?

Eis a questão, meu caro: o conforto, ao mesmo tempo que nos consola as desditas, também nos sabota. Conforto é a guloseima da vida, a sobremesa farta depois do almoço. É gostosa e bem sabemos que a merecemos. Não obstante, embutido no pacote comprado da taça de mousse, também há gorduras e malefícios. Ela compensa a alma, todavia pode descompensar o corpo. Por isso, que nunca é bom que seja exagerada. Doce é bom e justo, mas moderado.

Conforto também é assim. O que buscamos nem sempre é o que precisamos.

Eu o digo e posso dizê-lo de cátedra, porque algumas vezes na minha vida tive a coragem de fugir dessa zona de conforto quando menos todos – até eu mesmo – esperávamos. Acho que sempre tive isso. Esse sensor que acende toda vez que considero que não há mais nada a ser feito. Que está tudo bem demais e eu deveria ser feliz, me aquietar, estirar a pernas no sofá estendido, me refestelar, escolher a programação do netflix e planejar um churrasco para o fim de semana. “É só isso?!”. Essa é a pergunta que sempre me perseguiu? “Acabou?!”

Certa vez,  ouvi o Ziraldo contando que o povo mineiro é criativo porque sempre tem montanhas ao redor. É um pessoal que já nasce cogitando o que tem além das montanhas. Eu não sou mineiro, mas acho que criei a próprias montanhas no Ceará. Montanhas sobre o mar? Poético!

O fato é que, também, sempre imaginei o que existiria depois se. O famigerado “se” está sempre lá. Ele é a luzinha que se acende quando tudo parece bem demais. Quando o sofá me chama. Aí, acontece de ouvir outra voz, um sussurro constante, um apelo que vem do túmulo que tenho à frente. Um clamado para a possibilidade.

Possibilidades são trágicas. Saber que somos livres e que boa parte do caminho que fazemos das nossas vidas é trilhado pelos destinos dos nossos pés é uma compreensão avassaladora e temerosa. Na verdade, é um terror. Você é condicionado a vida inteira para ser cuidadoso e responsável e previdente e prudente e … De repente, subverter essa linha e fugir do usual são as atitudes mais revolucionárias que um sujeito pode tomar. Muitas vezes, parece melhor (e mais salutar) ficar na sua, optar pelo comodismo, maquiar a acomodação é apelidá-la de satisfação ou pior, de felicidade.

Eu sei. Ah, como sei.

Sei com a ciência de quem lá esteve e não só ouviu falar. Sei, e bastante, porque observo as pessoas, meio atônito, ao perceber como incomoda e exaspera quem ousa sair do script esperado. As pessoas vivem repetindo que a vida deve ser vivida intensamente. Desde que essa intensidade seja exatamente aquilo que a maioria prega e espera. É a intensidade na mesmice.

Sei porque – exatamente – no momento em que digito essas doidivanas linhas as vejo ecoando na minha vida. E, por isso, sei que não é fácil. As montanhas ainda estão lá, são altas, mas eu decidi que vou transpô-las. Só que a mochila pesa às costas, os pés sangram, o sol está a pino e a sombra é rala. Tenho medo de não encontrar água e provisão. Outros dependem também de mim. Porém, não uma história, uma cronicazinha qualquer, um mero poema, um único verso épico tratando de quem ficou na zona de conforto. Na verdade, esta é uma região do mundo árida de histórias, sem mitos, sem heróis, sem lendas. A zona de conforto é um espaço amorfo.

Valerá a pena?

Não sei. Disse o Fernando que tudo vale a pena se a alma não é pequena.

Eu tento sincera e generosamente – todos os dias – não me apequenar diante da vida.

Espero contar como foi quando esses picos que hoje tenho à frente sejam superados. Depois, desconfio, existirão outros, e outros.