Hoje chove

22 de outubro, 2016 - por Max Franco

Casimiro dizia:

“Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!”

Eu não digo.
Não me lembro de infância tão infantil assim.
Me lembro dos Flintstones, dos Homem de seis milhões de dólares, da escola, das porradas que levava na escola, de não saber que isso era bulliyng, de não poder brincar na rua porque a minha mãe dizia que era coisa de moleque, de odiar usar óculos, do futebol do recreio, de não ter grana para lanchar do recreio, de voltar molhado de suor com os óculos pendurados depois do recreio.
Não faço coro com Casimiro sobre a infância.
Mas tive uma boa adolescência. Todavia, quem escreve sobre adolescência? Será que ninguém gostou de adolescer? Eu, por exemplo, entre mortos e feridos, adolesci bem. E, principalmente, fiz amigos (poucos) para uma vida inteira.
Tenho saudades? Se “ter saudades” for vontade de voltar atrás, não tenho. Na verdade, não quero reviver fato algum. Quero viver mais coisa. Tenho pouco olho no retrovisor e, mais, na estrada à frente. Não há máquina do tempo e, caso houvesse, pouca coisa feita eu visitaria caso pudesse.
Devo dizer que chove lá fora. Disso, tenho saudades. Da chuva. De não evitar chuva. De amar a chuva debaixo da chuva. É que, quando chovia, a molecada corria para a rua para tomar banho de chuva, chutar as poças, tomar banho de bica, jogar bola no barro molhado. É claro que voltávamos para casa em petição de miséria e éramos saudados pela mãe com todos aqueles doces impropérios que só as mães mais zelosas conseguem nos atirar nos ouvidos.
Hoje, chove, mas chove sem plateia.
A molecada pegou anos nas costas. Estão todos espalhados. Eu fiquei espalhado. Eu, aqui. Eles, lá, acolá, mais adiante, talvez fora. Nem sei.
Eu, homem feito, correria na chuva fazendo todo aquele rebuliço? Mas, claro! Não me vejo homem feito. Me lembro que o tempo passou, mas eu tenho ainda 13 anos. Tenho 13, 26, 36, 46… Tenho todas essas idades, então posso fazer coisas de cada uma.
Por que não o faço? Porque criancices sozinho não tem graça alguma. Preciso ver os meninos sem falar dos juros, do dólar e da política. Preciso vê-los todos de calção, blusa furada, cara enlameada de sorriso aberto. Preciso empurrar o Ricardo na poça, derrubar o Enéas no chão, rir até chorar com o Joca, cantar a plenos pulmões com o Mauro, pular um muro com o Paulo, jogar bola com o Roberval, cantar a missa com o Edísio…
Todos se tornaram homens tão sérios e sisudos. (Como eu?!) Gente responsável, pais dedicados, cidadãos honestos… Que maravilha. A vida foi generosa conosco e nos permitiu realizar tantos sonhos. Mas, também, nos embraqueceu os cabelos e mirrou nossas risadas. Que pena!
Mas a vida é assim. Ela dá coisas, nos subtrai outras, nos rouba a rua e a chuva.
Mas, quero lhes dizer, queridos amigos. Eu – hoje – formalmente declaro sem medo de declarar. Eu – hoje – abriria a mão do projeto importante (e chato!), dos cabelos esmaecidos, do medo de ser ridículo e da seriedade dos anos para ter vocês na minha rua de terra lá na Parangaba. Porque hoje chove. E ninguém deveria desperdiçar chuva tão boa.