Florença, Estado da Arte

02 de maio, 2016 - por Max Franco

– Você e seus delírios, disse o jovem Michelângelo para Leonardo, eu fiz um gigante. Eu fiz Davi.

Ele tinha certa razão.
Da Vinci era um gênio volúvel. Vivia se apaixonando por novos projetos e abandonando os anteriores sem concluí-los. Ele, por exemplo, morreu em idade avançada, principalmente, para a época. E, mesmo assim, só conhecemos 23 de seus quadros, e vários inacabados.
Todos sabemos que Leo era um gênio polivalente e multitalentoso. Um gênio plural top five da humanidade.
Mas, de fato, podemos acusá-lo de tudo menos de ser um realizador.
Michelângelo um homem de muitas artes. Poeta, arquiteto, escultor e pintor, era espetacular em tudo.
Para Domenico di Masi, só há gênios quando há gênio. Isso mesmo: nada como uma boa competição temperada com os velhos sentimentos de ciúmes, invejas, ódios e ressentimentos para incentivar grandes produções. Seja quais forem: científicas, artísticas, empresariais, profissionais… A questão é que nem sempre as emoções mais nobres são as mais produtivas.
Eu não vou mentir e, se você for honesto, também admitirá: eu também já fui motivado para as melhores coisas pelos sentimentos mais rasteiros. E o pior é que, muitas vezes, funcionou.
A questão, a meu ver, não é a natureza do que se sente, mas o que se faz com essa matéria-prima.
Se você conseguir provocar essa metamorfose e transformar recalques em superações, obstáculos em trampolins, traumas em obras-primas (parabéns!!!!), e – principalmente – que não lhe faltem nem uns nem outros. Que você sofra muito, meu amigo. Porque o mundo será melhor por causa das suas frustrações (sem masoquismos, pelo amor… ).
A história mostrou que entre Da Vinci e Michelângelo, os dois estavam certos. Cada um do seu jeito. Não há réguas para compará-los. Um foi Pelé. Outro, Garrincha. Um fez mais de mil gols. Outro nos fez delirar. Quem foi melhor? Quem está fazendo essa pergunta imbecil?!
Que igual a Florença, na vida e no mundo, hoje e amanhã, sobrem realizações, e , sempre, sempre, os melhores delírios.
– Delire-se, amigo. Pois sem delírio não há deleite.