Das histórias no mundo da política

14 de junho, 2016 - por Max Franco

Storytelling é “arte de contar histórias” e é uma ferramenta poderosa para atrair engajamento e envolvimento emocionais. Comportamentos que são extremamente oportunos para prender a atenção de clientes, multiplicar eleitores, motivar equipes, estimular desempenhos, promover marcas, aproximar alunos, e, resolver problemas, em outras palavras, gerar conexões entre emissores e receptores de determinada mensagem. Os estudiosos, antropólogos e historiadores, atestam que gostar de contar e de escutar narrativas é um comportamento ancestral da humanidade. A aplicabilidade moderna do storytelling é uma pulsão natural justamente porque é uma inclinação comum desde os tenros anos do ser humano até o seu auge, a atualidade, o império das histórias.

É justamente o que ocorre. O homem moderno mal sai da cama e confere o celular. À procura de quê? Mensagens, notícias, isto é, histórias. Ele – então – liga a tv, vai para o banho, faz o café ou vai tomá-lo numa padaria. Tv ligada nos noticiários. Durante o dia inteiro de trabalho a sintonia mal cessa. Orelha voltadas para a ocorrências locais, desde as fofocas do departamento, até o ataque à boate de Orlando. Nosso protagonista volta para a segurança do seu lar, e o que ele faz? Ele pega um livro (tomara!), ele acende a tv para assistir a um jogo ou a uma série na onipresente netflix. O que ele quer? mais uma vez: histórias!

No mundo da Política, não é diferente. As histórias urgem. Ninguém acredita mais em retóricas vazias ou em promessas de campanha. Um candidato precisa de história e uma história que chancele os valores que defende. O público procura coerência. A proposta do candidato – muita vez – pode ter seus furos, atrair certas polêmicas e escapar de alguns sensos comuns, mas o que, hoje, importa, é que  emissor e mensagem estejam conjugando o verbo na mesma pessoa.

o storytelling é amplamente utilizado, mas nem sempre da melhor forma, e a razão é simples: as pessoas não sabem contar histórias! Não sabem porque não dominam as técnicas, não conhecem os fundamentos e – principalmente – não sabem o que devem contar.

– Antes de tudo, temos que ter um lema, um tema, uma bandeira para empunhar. Qual a moral desta história que queremos contar?

Depois, precisamos identificar rivais e aliados, e, principalmente, de um grande problema. Contra quem ou contra o que o nosso herói esta lutando? A favor de quem? Quais são seus parceiros? E quais os adversários? Quais as suas referências? Ele tem um mentor?

“Antes compramos as histórias dos candidatos, depois votamos nas suas ideologias.” (C.SAUMON).

Campbell trata com frequência da necessidade humana, arquetípica e ancestral de erigirmos heróis reais e fictícios. Os heróis de ontem e de hoje funcionam como modelos inspiradores e verdadeiros faróis iluminando as águas escuras para as nossas embarcações. Desde a Ilíada e a Odisseia, de Homero (VI a.C), desde a Eneida de Virgílio (I a.C.), até as façanhas de James Bond de Ian Fleming, na atualidade, o homem constrói figuras especiais dotadas de valores humanos e talentos extraordinários. Aquiles, Ulisses e 007 são necessidades da nossa natureza. A humanidade ama seus heróis. É lógico que a política não iria – jamais – perder um filão tão propício de ser explorado. Basta construir estes heróis. Eles nem precisam sê-los. A máquina publicitária faz isso continuamente: ergue mitos e depois convence os crédulos a votarem neles.

O grande desafio atual, ainda mais no Brasil, é que crédulo é mais um artigo raro no mercado. De maneira geral, no país, impera um índice avassalador de rejeição aos políticos. Por isso, defendo que:

– quanto menos político o candidato aparentar, melhor;

– demonstre como não queria entrar nesse mundo. Estava bem como empresário, médico ou advogado,  mas o dever cívico e a vontade de fazer algo pela comunidade venceram a sua resistência ao ofício;

– a sua plataforma (tema, lema e projeto) deve ser simples e objetiva. Compreensível para todos e em consonância com as necessidades dos eu público. Quem defende tudo não defende nada;

-ele está se sacrificando pela coletividade. É um herói.

Do que estamos falando? Claro. Do velho Campbell e da “saga do herói” que ele descreveu faz décadas. Esta sequência típica que permeia todas as grande s histórias da humanidade. Que é o DNA dos mitos, das lendas e dos heróis. E – que – principalmente, todos amam. Buscam diariamente da pasta de dentes à pasta de dentes.

Insisto que só há essa saída para o imbroglio atual: candidatos que tenham histórias e valores. Candidatos que tenham valores identificados nas suas histórias.

Mais uma vez, também nesse universo, precisamos de histórias.