Autostorytelling

27 de fevereiro, 2019 - por Max Franco

O storytelling é um recurso, tão antigo quanto universal, de potencialização da comunicação. O sujeito que sabe construir narrativas e ancorar a sua mensagem em boas histórias tem uma ferramenta poderosa de persuasão nas mãos, ou na boca.

Não sabemos quantas vezes na vida as nossas decisões foram influenciadas por narrativas, mas – basta um pouco de reflexão – para nos darmos conta do quanto as nossas crenças e decisões, como também nossos conhecimentos,  hábitos e valores são definidos por relatos que escutamos, livros que lemos, filmes, desenhos animados e séries aos quais assistimos, experiências que vivemos e histórias que acompanhamos. O fato é que somos ávidos consumidores de narrativas (como atestam, por exemplo, as redes sociais e o netflix) e, também, somos divulgadores de histórias. Nós somos storytellers, afinal também contamos histórias para os outros com intuito de convencê-los a fazerem o que desejamos. O storytelling tem o papel de servir como um argumento de convencimento e uma estratégia útil, seja na negociação com a sua namorada, seja com seu chefe, sua equipe de trabalho, alunos, clientes, pacientes, público…

Mas, há um outro interlocutor a quem tentamos convencer por meio de narrativas com enorme frequência. Quem? Não desconfia de quem seja? Isso mesmo: você!

Não usamos o storytelling apenas com os demais. Na verdade, a maior “vítima” das narrativas que você constrói é sempre você mesmo. Vivemos tentando contar histórias para nós mesmos, da hora na qual despertamos até a hora do sono. O storytelling, muita vez, é utilizado com o perigoso viés da manipulação e do embuste. Nem sempre as narrativas são usadas para o bem. O storytelling é uma ferramenta antagônica. Pode ser usado com os objetivos mais e menos nobres. Basta ligar a tv ou acessar suas redes sociais para verificar como muitos setores e atores sociais fazem uso da metodologia para ludibriar as pessoas com algum intuito oculto. Seja para empurrar uma venda questionável, seja para promover um candidato escorregadio, são inúmeras as ações cotidianas de emprego não ortodoxo do storytelling. É sempre bom encarar qualquer narrativa com algumas perguntas coerentes na cabeça:   “Para onde querem me levar com essa história?”, “O que desejam de mim?”, “Qual a intenção velada dessa narrativa?”

Entretanto, a questão é que não deveríamos temer apenas as histórias que outros nos contam. Há narrativas ainda mais insidiosas: as próprias!

Quantas vezes por dia não contamos para nós mesmos diversas histórias – minimamente – tendenciosas?

“Não vou para academia porque está chovendo!”

“A culpa foi dele!”

“Só perdi o emprego porque puxaram meu tapete!”

“Não emagreço porque tenho problema de tireoide!”

“Me separei porque ela era intolerante!”

” Não passei no concurso porque não tive tempo para estudar!”

(…)

A verdade é que não são apenas algumas pessoas que não merecem a nossa confiança. Nós não somos tão confiáveis assim. Temos hábitos e crenças que nos sabotam o tempo inteiro. Temos nossos compromissos conosco e, por isso, somos suspeitos a nos julgarmos. Nem sempre conseguimos estabelecer um processo de autoconhecimento profundo, maduro e sincero a ponto de nos aferirmos com honestidade.

Nas nossas narrativas, aquelas que criamos e repetimos para nós mesmos diuturnamente, é muito comum que coloquemos NÓS como heróis. É verdade que mil vezes agimos mal, fomos covardes, ególatras, egoístas, mesquinhos, omissos, maldosos, medíocres, porém não é incomum que tratemos esses vícios como meros deslizes. Somos demasiado benevolentes e complacentes com as nossas falhas. Ou, por vezes, exatamente o contrário, quando somos excessivamente severos. Por quê? Porque estamos envolvidos demais nas nossas narrativas. Não somos realmente imparciais em relação a nós mesmos. Nós temos lado, time e partido.

Melhor seria, entretanto, encarar com maturidade os próprios relatos. Melhor seria enxergar as nossas história com algum equilíbrio e alguma parcimônia. Autoconhecimento não tarefa fácil. Muita gente nasce, vive e morre sem saber – de fato – quem é. Esse é processo complicado e, muitas vezes, doloroso. Dar-nos conta dos próprios limites é sempre muito difícil e, mais ainda, é perceber quantas vezes nos embromamos, seduzimos, mentimos, punimos e enganamos com as histórias que contamos para nós mesmos.

Não obstante é certo. Só aquele que alcança esse olhar crítico sobre  si mesmo consegue amadurecer e oferecer a si mesmo a vida que merece. Gente assim vive melhor e, principalmente, convive melhor.

É sempre bom, portanto, termos cuidado com as histórias que nos contam e, mais ainda, com as histórias que contamos para nós mesmos. O autostorytelling pode ser uma estratégia fatal.