Aprendendo com quem sabe

14 de novembro, 2017 - por Max Franco

Em 2014, passei 18 dias conhecendo o sistema educacional da Finlândia e da Suécia. Não preciso dizer aqui como fiquei impressionado. (Eu não preciso, mas, mesmo assim, direi: Eu fiquei impressionado!). Não é por nada que estes países, há vários anos, lideram os rankings do PISA e é  indicado pela OCDE (a entidade que aplica a avaliação) como líderes mundiais em performance acadêmica, se destacando pela igualdade na educação, alta qualificação de professores e por repensar –  com frequência – seu currículo escolar.

Quando me perguntam o que encontrei de tão revolucionário na Finlândia para gerar estes resultados, sempre respondo que o centro da questão não é a tecnologia, como muitos atribuem. De fato, há tecnologia em sala de aula, mas não é ela que faz a diferença. O que faz a Finlândia, por exemplo, ser uma das campeãs do mundo no ensino é que a Educação por lá não é só projeto de estado, mas de um povo inteiro. A Educação é a prioridade.

Por isso, ser professor por lá é tão difícil quanto ser médico, e pode até ganhar de forma semelhante. Na verdade, este é um dos segredos na Finlândia: não há grandes discrepâncias de salário entre os profissionais. Todo mundo paga muito imposto, mas há uma sutil diferença. O governo governa para o povo. Estes países não são perfeitos. Mas, entre nós e eles há uma distância social maior do que da Terra para a Lua.

A formação dos professores é apontada como a principal razão do sucesso do ensino finlandês. Mas, não é só isso. Há pesado investimento e cobrança na formação dos profissionais,  muito tempo para planejamento das aulas e, obviamente, grande exploração das metodologias ativas.

Como já tratei neste espaço, as metodologias mais utilizadas são as chamadas PBL (Problem-based learning e Project-based learning). Neles, problemas – fictícios ou reais da comunidade – são o ponto de partida do aprendizado. Os alunos discutem, pesquisam e aprendem na prática, buscando eles mesmos as soluções.

Eu não imaginava, mas uma das disciplinas centrais na Finlândia é a de gastronomia. Isto tem uma razão cultural. O jovem finlandês sai de casa muito cedo. Ali pelos 16 anos, ele (ou ela) deixa a casa dos pais e precisará morar sozinho. Esta necessidade de se virar acarreta esta busca pelo aprendizado de culinária. A Escola se utiliza deste fenômeno para trabalhar com PBL. Afinal, pode-se explorar a gastronomia para aprender muita coisa: matemática, biologia, química… tudo voltado para uma aplicação e para uma prática cotidiana.

A resolução de problemas e projetos é parte de um ensino mais centrado na produção do aluno. O papel do professor, principalmente, é o de mediar a interação na sala de aula e saber quais metas precisam ser alcançadas em cada projeto.

O celular não é proibido em sala, mas usado constantemente para auxiliar à aprendizagem. Há aplicativos específicos para isso, como aqueles que servem para responder enquetes. Nesse contexto, a avaliação funciona de modo diferente. Os alunos se autoavaliam, avaliam uns aos outros, e o professor avalia os resultados dos projetos.

O mobiliário de muitas salas também é completamente diferente daquele com o qual estamos acostumados no Brasil. A classe é planejada para favorecer a interação e o uso de tecnologias. Em outras palavras, é uma Educação muito mais participativa, focada no desenvolvimento de habilidades e não somente na assimilação de conteúdo tradicional, aprimorando competências exigidas na modernidade,  como pensamento crítico, oratória e empreendedorismo.

Infelizmente, como já disse antes, estamos há anos-luz destas práticas, mas não há mudanças sem um primeiro passo, o qual precisa –  com urgência – ser dado por aqueles que sentem o problema de forma mais contundente: nós, os educadores.

Pois, amigos, mãos à obra!