Andanças

24 de julho, 2018 - por Max Franco

O que aprendi com as minhas andanças?
– Por que me pergunto?
– Não porque considere interessante para alguém, afinal, não há nada nas minhas reminiscências (publicáveis) que soe algo escandaloso ou minimamente vexatório. Portanto, como sabemos, não interessa a ninguém, além de mim mesmo. Logo, o faço apenas pelo registro, pelo souvenir, pela preservação de uma informação, para que eu tenha mais um dado – num futuro potencial – para rir da minha pessoa. Bem sei que material para isso nunca me faltará. Quero ser um velho divertido.

– O que aprendi com as minhas andanças?
– Pergunto novamente, mais por uma razão estilística do que para não perder o fio da meada.
– Pois é… Padeço de dor nas costas, de queda de cabelo e de digressão crônica.
Mas, dessa vez, vou contrariar as expectativas e me deter no assunto proposto.
Aprendi um bocado de coisa superficial, algumas, importantes e umas, poucas, poucas mesmo, essenciais. O problema é que não sei – ao certo – discriminar qual é qual.
Aprendi, por exemplo, que para se fazer uma boa viagem é importante se buscar certa praticidade. Por isso, considero que quem inventou a mala com rodinhas mereceria, inquestionavelmente, o nobel da paz. (Falta só alguém que as faça subir escadas sozinhas!)
Aprendi também a não ter (muita) pena de gastar dinheiro com comida. Não há como se conhecer um país sem descobrir seus costumes. Curto, então, escutar a sua música, ouvir a sua língua, observar a sua arquitetura, conversar com a sua gente, vagar nas suas ruas, aspirar os seus aromas e, claro, saborear a sua comida. Para conhecer um país é preciso comê-lo vagarosamente. Um país se rumina.
– O que descobri sobre as pessoas?!
– Que as diferenças não passam de meros sotaques se comparássemos com as semelhanças.
E – talvez – seja justamente essa a raiz de todos os problemas! No fim, somos tão parecidos que acabamos desejando as mesmas coisas, e é essa exatamente a razão dos conflitos: querer as mesmas coisas! Alguém sempre acaba conseguindo, e muitos alguéns não. Melhor seria se fossemos tão diferentes que quiséssemos coisas diversas. Porque, afinal, não há tudo para todos, nem todos detém de condições iguais para brigarem pelas suas necessidades ou quereres.
Por isso, sou a favor das diferenças humanas. Diferenças são patrimônios! Humanos de todo o planeta, diferenciemo-nos! Lutemos por coisas diferentes, mas não entre nós, mas contra as intempéries da natureza, contra as parcas condições dos lugares, contra as limitações histórico-sociais, lutemos contra o diabo que for, mas não contra nós mesmos.
Todavia, só há um jeito desse fenômeno de bem-aventurança ocorrer: se quisermos coisas diferentes!
Enquanto almejarmos a mesma grana, a mesma posição social, a mesma pessoa, os mesmos bens, o mesmo prevalecimento das ideias, o mesmo poder… O mesmo nunca é para todos. Só para os mesmos.
– Só tem um jeito: fugir a mesmice! Mudar as categorias mentais. Eleger novos modelos. Elevar outros paradigmas. Erguer novos altares. Para que os sonhos sejam plurais. Para que as aspirações sejam diferentes das mesmas. Das mesmíssimas mesmices de sempre.
E a mesmice campeia ao lado da sua irmã mais velha, a Ignorância. (É melhor “ignorância”, com i minúsculo, pois ignorância não merece nada maiúsculo!)