Amigos, amigados e desamigos

03 de março, 2017 - por Max Franco

Quando nascemos, não conhecemos nada. Somos perfeitos desconhecidos apresentados a um mundo que também ignoramos. A partir daí, tudo vira conhecimento. Conhecemos nossos pais. Descobrimos os sabores. Aprendemos palavras e aprendemos que as coisas possuem palavras para designá-las. E continuamos aprendendo dia após dia.

Há dias de conhecimento pequeno. Outros, de grandes surpresas.
Quando vemos uma bola, não precisamos de grandes malabarismos mentais para chamar a bola de bola. Afinal, conhecemos bolas. É simples olhar para uma bola e reconhecê-la como bola.
Mas a vida não é assim tão simples, é?
É nada!
Vida é coisa das mais difíceis e complicadas. Simples é a morte. Você morre e caput. Não há mais decisões a tomar. Ninguém espera mais nada de você. Somem as expectativas, as decepções, as frustrações e os improvisos. Dentro de um caixão, as coisas ganham simplicidade.
Por isso, nem sempre é fácil se reconhecer tudo. Há sempre tanta coisa que ignoramos. Como reconheceríamos o que dessabemos?
Amigos, por exemplo, como reconhecê-los?! Como dividir nas prateleiras quem é amigo, amigado e desamigo?
Há sempre o grande jurado de tudo, o Tempo. Senhor de tudo o que sucede abaixo e acima do sol. Juiz das coisas e das vicissitudes. Árbitro das prerrogativas e das sucessões. Nada escapa do seu jugo e da sua balança, e, principalmente, tudo só vigora com o seu aval.
Assim são os amores e as amizades.
Há amores para sempre e eternos.
Há também amores hoje e etéreos, que duram cumprimentos. Duram boa noite, bom dia, como vai?
Mas, amizades ou são duradouras ou não são. Amigos perduram. Colegas passam. Amizade não é gripe que se acomete e se cure em dois dias e um resfenol. Amigos se instalam e tomam posse. Ganham terreno na alma alheia. Porque de alheia se torna própria. Amigos compartilham almas.
Eu tenho amigos, por sorte. Fiz a conta aos 18 e eram 30. Fiz de novo aos 30 e eram 18. Hoje, aos 47, desisti da matemática.
Tenho o privilégio – enorme – de reconhecê-los como são. Cheios de méritos. Repletos de defeitos. Mas, mesmo assim e por causa disso, são amigos.
Gosto de reconhecê-los com seus nomes e com a alcunha de amigos. Gosto que me saibam irrevogavelmente como sou. Sem tirar nem por. E ainda assim me chamem pelo meu nome e com o título de amigo. Odeio fazer gênero, eles bem sabem. E, nesta idade, a maquiagem não me cai tão bem. Então me aceito ser absolutamente como sou. Apenas e tudo isso. E é um enorme privilégio que me chamem – apesar de tudo e por causa de tudo – de amigo. Um amigo daqueles sem protocolos ou cerimônias de tratamento. Amigo jogo-aberto, olho-no-olho, sem tapinhas nas costas e sorrisos furtivos. Amigo com A e todas as letras maiúsculas. Amigo de corpo, alma e sacanagens. Amigo do tipo irmão. Por sinal, não conheço outro tipo. Amigo de conveniência não o é. Amigo passageiro é paradoxo. Amigo pra toda hora é pleonasmo. Amigos são amigos. Não são networking. Amigos são cúmplices da felicidade mútua.
Meus amigos são esse tipo de gente. Sujeitos de sorriso obstinado e de generosidade crônica, de disponibilidade recorrente e espírito abnegado.
Desejo ser, para todos, se não o melhor amigo, ao menos, um amigo melhor.