A tragédia nacional

16 de abril, 2016 - por Max Franco

O suicídio de Getúlio, a renúncia de Jânio, o golpe contra Jango, a mão pesada da ditadura militar por mais de vinte anos, a morte prematura de Tancredo, o equivocado governo de Sarney, o saque das poupanças na gestão Collor, impeachment do Collor e agora… É impressão minha ou o povo brasileiro tem algum apreço por dramas?

Acredito que político deveria ser igual a árbitro de futebol. Todo mundo sabe que juiz muito comentado é o que mais erra. Árbitro bom é o anônimo. Quanto mais sabemos os nomes deles, maiores são os problemas do jogo. E estamos sabendo nomes demais dos nossos digníssimos parlamentares. Na mídia, não são atores nem atletas que estão em voga, mas políticos. Há algo de muito errado em curso.
Nessas horas plúmbeas, é o bardo que me vem sempre em mente. Shakespeare já previu isso tudo. Infelizmente, não nas suas comédias. Mesmo que, em alguns momentos, também pareça que vivamos sob o jugo de Pícaro, de tão burlescos que sejam os atos.
Há esse personagem deliciosamente mau, Iago. Ele, como Frank Underwood de House of cards, trama contra o seu líder e, sem qualquer arma, a não ser palavras e maquinações, consegue derrubar o homem mais poderoso do reino, o grande General Othelo.
Frank é o Iago moderno. Ele rompe a quarta parede e conversa com a plateia, explicando suas intenções e detalhando o modus operandi. Ninguém pode acusá-lo de excesso de escrúpulos nem de falta de inteligência. Ele é dotado de uma sabedoria do mal e não há fronteiras para as suas ambições. A história é testemunha das desgraças que homens talentosos, mas sem alguma moral, são capazes de patrocinar. Nesse caso, talvez somente nesse, eu diria: viva a desinteligência.
Por que estou citando Iago e Underwood? É óbvio. As atualidades são tempos trágicos. E personagens deste naipe pululam aqui e ali o tempo todo. Neste texto contemporâneo, as palavras mais usadas tem a égide da insídia e do maquiavelismo, das tramóias e das barganhas mais vis, das manipulações (nada) veladas e das traições mais covardes. Nem Shakespeare faria melhor.
Não queria antecipar spoilers, porém – preciso dizer – o meu medo é que, nas obras do célebre dramaturgo, não acaba bem para ninguém. Iago morre. Othelo se suicida. Desdêmona é assassinada. E o reino padece. Antagonistas e protagonistas morrem abraçados, literalmente.
As linhas garatujadas sobre o nosso pobre e desorientado país, o que dirão?
Não me parece que venha coisa outro gênero senão o drama.
– Mais drama.