A roda da fortuna

23 de junho, 2016 - por Max Franco

As lendas e crônicas narradas pela humanidade contam histórias de mobilidade. Há sempre um trânsito: quem estava bem, depois, acabou despencando. Quem estava sofrendo conseguiu se promover. Existe uma roda que gira provocando desfortunas e fortunas. Ela, por sinal, antigamente, merecia um nome: a roda da fortuna.

A roda da fortuna é um mito várias vezes citado na idade média, e o que ela prega é extremamente compreensível e atual em quaisquer épocas ou latitudes: num dia, você pode estar por cima, noutro, por baixo. A questão é que, para os antigos, estes movimentos, tanto para o sucesso, quanto para a derrocada, não eram tão determinados assim pelas nossas atitudes, mas por forças, muitas vezes, sobrenaturais. Os homens de outrora não eram, exatamente, muito existencialistas.

Como sabemos, o mundo medieval não pode ser definido como o mais tranquilo e seguro dos mundos. A Europa, por exemplo, vivia num constante perigo, com medo dos vivos e dos mortos, das doenças, de monstros ignotos, do fim do mundo… Só o que não faltava era motivo para se ter medo. (Era um mundo muito diferente do nosso, tão confortável!). Por conseguinte, se acreditava que o destino dos homens, mesmo de papas e imperadores, era determinado pela Fortuna. O termo Fortuna parece ser uma variação de duas diferentes deusas da cultura clássica greco-romana, a Fors (“a que traz”, a providência) e a Fortuna (ligada à fertilidade, à agricultura e às mulheres), as quais, posteriormente se fundiram.

Em suma, além de crer numa penca de deuses, o homem medieval também acreditava que os dados da sua vida eram atirados por uma entidade de natureza imprevisível e temperamental, a deusa da Fortuna, a qual, inadvertidamente, por qualquer que fosse a razão, poderia lhe depositar gentilmente no cume da Roda ou, para a sua desgraça, lhe permitir ser esmagado por essa mesma Roda.

A roda da fortuna ainda tem sentido e merece ser lembrada no século XXI? Talvez…

Ainda há muitos seres hodiernos que culpam deus ou o Destino pelos méritos e deméritos da sua vida. O século atual é menos propenso ao esclarecimento do que se pensava décadas atrás. A Roda, de certa forma, ainda gira conduzida pelo transcendente. Ainda dizemos “Graças a deus” quando as coisas dão certo. Ainda tentamos encontrar consolos de “Deus quis”, quando o malogro aparece. Eu costumo dizer que a linha da nossa vida é definida pela intercessão de alguns fatores: os nossos atos, os atos alheios e os caprichos do Acaso.

O fato é que, por mais existencialistas e pragmáticos que sejamos, precisamos entender que há elementos que não controlamos. Não controlamos os outros e não controlamos a Fortuna. Nos sorteios realizados a toda hora, você sempre pode se dar bem ou mal, ou bem mal. Portanto, para ajudar a Deusa, só há uma coisa a se fazer: controlar quem você pode controlar, isto é, controlar a si mesmo.

Se isto é extremamente difícil, imagina tentar controlar todo o resto.

Outra coisa que a “Roda” nos relembra é simples: é da natureza da roda girar. Nada é para sempre! Mas, o segredo é não esperar que ela rode sozinha. Faça a sua parte e força nos braços

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Max Franco é autor do livro “Storytelling e suas aplicações no mundo dos negócios”. É consultor de empresas e palestrante

 

roda

  • Regnabo: “eu devo reinar”, figura em cima, do lado esquerdo da Roda;
  • Regno: “eu reino”, figura em cima da roda, geralmente coroada;
  • Reganvi:“eu reinei”, figura da direita, caindo da  graça;
  • Sum sine regno “eu não tenho reino”: figura na base da roda que perdeu completamente os favores da Fortuna. Esta pessoa é as vezes completamente jogada da roda ou esmagada por esta.

 

O melhor exemplo desta representação na Idade Média se encontra justamente no período de vida de Ramon Llull (1232-1316) e na coleção de canções germânicas profanas denominada Carmina Burana, que possui uma canção a respeito da Fortuna, justamente a mais famosa da ópera composta por Carl Orff usando os versos, muitas vezes profanos e satíricos, que foram encontrados no mosteiro beneditino. Estes versos, muitos deles em latim e francês vulgar, foram feitos no século XIII.