A dor que não passa

04 de abril, 2016 - por Max Franco

Carlos sofria de uma dor no coração. Não uma dor metafórica, daquelas que migram da mente ou dos cotovelos para as profundezas do nosso âmago.
Na verdade, era uma dor física, aguda e dilacerante que lhe agredia o peito com uma perseverança de monge budista. Carlos tinha angina crônica. Uma agonia que visitava diariamente. Uma dor cotidiana.
Passei alguns anos sem revê-lo, até que um dia o Acaso nos reuniu novamente. A primeira pergunta que lhe fiz, logicamente, foi sobre a sua antiga dor. Ele parecia bem ostentando o seu melhor sorriso. Perguntei-lhe se estava curado. Se a dor havia sumido.
Ele me olhou bem nos olhos com aquele naipe de olhar que acaba lhe escaneando a alma.
– A dor, a dor não passou, nem curou. Só me acostumei com ela.

Há dores assim.
Há dor ordinária que dorme com você uma noite e no outro dia parte sem nem lhe pedir o whatsapp.                         Há dor namorada que fica por um tempão, mas não para sempre.                                                                                               Há dor que noiva e casa. Resiste até o fim, seja da vida ou do divórcio.
Há dores, porém, que se transformam em você. Fazem tanta parte da sua vida que você já não se entende mais sem e que, de repente, latejam sem mais lhe torturar.
Há dor que o tempo cura e há dores com as quais aprendemos a conviver. Ela dita seus termos, você acata alguns e impõe também algumas condições para a convivência (quase sempre) pacífica.
Dor de estimação, dor companheira, dor diária.
Eu tenho dores que me fazem mais companhia do que gente. Dores assíduas e pontuais. Dores leais.
Dor que – se sumisse – me deixaria algum vazio como herança.
Serei masoquista? Há quem não seja ao menos um pouco?
Sou vivo. Estou vivo. E viver, tanta vezes, dói.

– A vida é feita de surpresas, rotinas, improvisos, previstos e imprevistos.
– Como se faz, então, para se ter uma boa vida?
Não sei. É necessário tanto e tão pouco. É um simples complicado. Um fácil dificultado. Mas, acho que ajuda improvisar rotinas, prever imprevistos, e, claro, nunca perder a capacidade de surpreender e surpreender-se! O fato é que a gente vive para se emocionar.

A questão é simples.
Na verdade, não é.
Nada é simples. Nem os simplórios são simples.
Mas para facilitar a comunicação, vou dizer que é simples.