O sonho de Quixote

25 de junho, 2016 - por Max Franco

“Contento-me com pouco, mas desejo muito.” (Miguel de Cervantes)

Há dias e dias na nossa vida.

Hoje, me enviei para um dias desses que merecem ser lembrados. Dias com mais de 24 horas. Dias esticados que avançam por outros dias, até por anos.

Era o dia de hoje, mas, há tempos. Um dia feliz em Madri.

Eu bem me lembro e jamais me esquecerei. Eu era feliz, e, melhor, sabia.

 

O tempo estava surpreendentemente agradável em Madri. Coisa rara nos dias derradeiros de junho. Eu bem sei, já que sobrevivi a intoleráveis 46º numa oportunidade que ficou, digamos, gravada – em brasa – na minha mente.

Entretanto, por fortuna, naquela manhã de verão, o clima estava mais do que apaziguado quando chegamos a Plaza de España. Lá estavam as estátuas das personagens mais reverenciadas da Literatura espanhola. Todo mundo do grupo volta as suas máquinas fotográficas para o nobre Quixote, enquanto eu prefiro endereçar a minha atenção para o seu relegado parceiro.

Que dupla fenomenal: Dom Quixote e Sancho Pança. No mundo da ficção, talvez só Sherlock Holmes & Watson  poderiam rivalizar com os dois.

 El ingenioso hidalgo Don Qvixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes, foi publicado no ano de 1605, justamente num período onde as Novelas de Cavalaria, que tinham já gozado de enorme popularidade, estavam em franca decadência. O “Cavaleiro da Triste Figura”, que partia para aventuras mirabolantes montado no seu pangaré Rocinante, representa mais do que um protagonista de uma farsa burlesca, mas, de fato, a síntese de qualquer sonhador.

Dom Quixote, além de tudo, é mais uma daquelas obras emblemáticas que viraram referência, não só para a cultura de um povo, mas também se tornaram ícones na edificação da sua própria língua, como, por exemplo, também ocorre na Itália, com A Divina Comédia, de Dante Alighieri; em Portugal, com Os Lusíadas, de Camões e na Alemanha, com o Fausto, de Goethe.

Mas do que vim tratar mesmo aqui foi do indefectível Sancho Pança.

Há uma qualidade intrínseca ao fiel escudeiro do fidalgo Quixote. Uma qualidade que – por sinal – não saberia nomear, contudo, o mais próximo que posso chegar seria algo parente da palavra lealdade. Porque, pode-se alcunhar o pobre Sancho de um bocado de adjetivo, mas ninguém pode negar a imensa lealdade do sujeito.

É preciso se salientar que Sancho Pança não via nada daquilo que Dom Quixote – nos seus delírios – fantasiava. O comilão que, atuava como uma espécie de contraste ao cavaleiro idealista, se empenhava na maioria do tempo a tentar dissuadir o cavaleiro das suas barbaridades. Enquanto Dom Quixote era movido por sonhos e ilusões, Sancho Pança era um realista inveterado. Mas, o mais inusitado no enredo fantástico de Cervantes é que, mesmo sem enxergar dragões nos moinhos de vento nem exércitos inimigos em vez de rebanhos de cabras, ele investe com igual desprendimento e devoção contra os rivais do seu mestre. E, comumente, também se dá mal. É bárbaro!

Mas, por que ele o fazia?

Porque era obediente ao seu senhor? É um bom argumento, mas ainda incompleto.

A verdade é que Sancho Pança era contagiado pelo sonho de Quixote!

Sancho Pança nada via além do banal, do ordinário, do fato comum, do hodierno!

Mas, a quimera, porque tem asas, brilho e força própria também tem o enorme poder de inspirar mais do que qualquer verdade prosaica.

E não é exatamente isso que todos nós cobiçamos? Não é o nosso anseio mais profundo? Inspiração! Algo pelo qual valha à pena se devotar, se doar, se entregar de corpo e alma. Um ideal, uma paixão, uma missão, uma causa… Qualquer coisa que nos pareça maior do que qualquer perda ou renúncia. Que nos pareça ser maior do que nós.

Não foi por nada que, em 2002, um grupo de autoridades relacionadas ao mundo literário elegeu “Dom Quixote” como o melhor livro de todos os tempos, porque, além da inventividade e da destreza da prosa de Cervantes, perdura um grande senso de identificação das pessoas com a sua obra. Dom Quixote é eterno porque, antes de tudo, todos nós temos no nosso pacote interno algo quixotesco, o qual pode ou não ser sufocado pelas sufocantes forças sancho-pancistas de mundo hodierno.

O Cavaleiro da Triste Figura e o seu fiel escudeiro nos remetem aos nossos mais recônditos desejos e à nossa criança interior que sonha em sonhar e nunca deixar escapar o faz-de-conta, as fantasias e as brincadeiras há muito enterradas sobre toneladas de responsabilidades, conseqüências, multas e contas a pagar. O fato é que o mundo dos adultos é, por demais, chato! E o convite alienado de Dom Quixote e Sancho Pança nos seduz a por um elmo de mentira na cabeça e, montados num pangaré, perseguir miragens empunhando uma espada amassada, e salvar Dulcinéas pelo mundo afora, e enfrentar bestas ameaçadoras, e derrotar exércitos devastadores… Isso é que é vida!

Quem pode negar a altivez da proposta dessa dupla de desgraçados?

– Desgraçados?

Desgraçados – sem graça, somos nós – com as nossas vicissitudes medíocres da rotina estéril do nosso insosso cotidiano. Sem graça somos nós com os nossos hábitos apropriados, nossos atos comedidos, nossos comportamentos burocráticos, nossos padrões adequados e nossos costumes impostos. Nunca resgataremos donzelas em torres de castelos, nunca habitaremos qualquer estrela, nunca superaremos rivais formidáveis nas justas, nunca gozaremos a glória da vitória sobre o dragão monstruoso. Somos mais fronteiriços do que o desastrado do Sancho Pança, porque nem sequer uma vez nos abandonamos à utopia de sermos autênticos, espontâneos e – quem sabe até – felizes. Arraigada e absolutamente, desvairada e loucamente, felizes. Apenas.