A salvação do planeta

13 de junho, 2016 - por Max Franco

                                               “Egoísta é um sujeito mais interessado em si próprio do que em mim.” Ambrose Bierce

 

Cá estou, novamente, profanando as palavras a fim de panfletar minhas estapafurdices para os olhos benevolentes que – ainda – se voluntariam a me acompanhar em algum delírio grafado.

Dessa vez, quero postular uma nova barbaridade.

Quer dizer: à primeira vista, pode parecer uma barbaridade (à segunda e à terceira, também!).

Mas, bendita liberdade de expressão me alforria manifestar as minhas sandices. Portanto ei-la:

-Ando matutando se a solução para os problemas da Humanidade não seria justamente o egoísmo!

Não se apresse em torcer o nariz, caro leitor, pois bem que pode ser!

Sim, como dizia, claro que é. O egoísmo é a solução. Egoísmo é também causa. Claro que é. A desgraça está feita porque as pessoas são demasiado egoístas. Este é o ponto: a gente é incompetente até na hora de ser egoísta. Afinal, as pessoas se importam demais com as demais e isso é atitude nociva.

Estou convencido, caro leitor, de que da mesma forma que algumas pitadas de ateísmo e secularismo fariam um enorme bem ao Oriente Médio (quero ver um terrorista armado de fuzil entrar numa boate e detonar todo mundo sem acreditar nas virgens que lhe prometeram como companhia no seu paraíso!), faria, também, um efeito positivo e adstringente, ao mundo moderno, certa condimentação, algumas colheres do velho e polêmico egoísmo. Se este canalha enlouquecido não tivesse uma causa, se só pensasse em si e nos seus, se não quisesse – de uma forma bizarra – salvar o mundo, nada dessas maluquices haveria.

A questão é que as pessoas não cuidam tanto e tão bem da própria vida quanto poderiam e deveriam. Imagine quão benéfico seria para a sociedade se não nos incomodássemos tanto com o que o outro faz? A gente acaba se entretendo em demasia com a vida do vizinho. E pior, não só como voyeur’s – como bem somos – mas como verdadeiros fiscais.  Preocupamo-nos (não altruisticamente, é claro) com o carro novo do vizinho, com a namorada nova do vizinho, com o namorado novo do vizinho, com os novos namorado e namorada do vizinho, com a grama e grana do vizinho, com a falta de grana do vizinho, com a viagem do vizinho, com a religião do vizinho, ou com a sua falta de religião, com as ideologias políticas do vizinho, com o time do vizinho, com a raça do vizinho, com o vizinho do vizinho… Ah, que bem faria para a coexistência humana se não nos importássemos tanto com o vizinho!

Outra boa defesa para o egoísmo é o problema da necessidade. Pode parecer meio cru e antipático dizê-lo, mas quem pode negar o fato de que se cuidássemos melhor da nossa vida não necessitaríamos tanto de auxílios dos outros? É porque necessitamos de ajuda que importunamos os nossos semelhantes. Imagine que mundo maravilhoso seria se cada um zelasse pela sua própria vida e evitasse perturbar os demais com problemas que eles não fizeram nada para erigir.

O leitor bem intencionado, solidário e fofinho que pacientemente (sei lá o motivo) ainda me segue deve estar agora prestes a fazer uma fogueirinha com as minhas tão vãs palavras. Para este, devo dizer educadamente, que – até para ser coerente com o meu texto – estou me lixando para a sua opinião e para a sua proposição de que a caridade é que pode salvar o mundo. Este equívoco é bem intencionado, como diversas das tolices perpetradas sob a face da terra acabam sendo.

Compreenda, meu caro expectador: a caridade não vai salvar o mundo porque  nada vai salvar o mundo. O mundo está perdido desde quando ele é mundo. (Ai! Como também está perdido este infame trocadilho!) O fato é que o mundo não quer ser salvo. Ninguém quer ser salvo. As pessoas querem ir para o céu, mas não querem ser salvas e – por sinal – só querem ir para o céu porque têm medo do calor do inferno ou daquele imenso nada que poderá vir depois. Se a fé, a caridade e a fraternidade pudessem salvar o mundo já o teriam feito. Temos, afinal, mais de dois mil anos de cristianismo. O Brasil é a maior nação cristã do mundo. E aí, no que isso resultou? O nosso país é, de fato, o melhor modelo de paz, harmonia, ética, justiça, honra que existe hoje no planeta. (Sei!) Já a Noruega, a Suécia, a Dinamarca, a Holanda, o Canadá, por sua vez, alcançaram esse patamar de qualidade de vida e de cidadania em virtude dos seus fortes e arraigados preceitos religiosos. Foi não. Foi pela integridade das suas instituições, foi pela Educação e pela Cultura fornecidas sem moderação ao seu povo.

– Mas e a generosidade do povo brasileiro? – defende o meu leitor docinho.

– É uma grande balela! – respondo eu amarguinho. – Como dizia o Otto, “O mineiro só é solidário no câncer!”. Papo furado! Nem mineiro, nem qualquer outro brasileiro não é solidário, muitas vezes, nem sequer no câncer. Essa mitificação de povo caloroso, acolhedor e fraterno é mais uma autocomiseração construída para que o brasileiro possa vislumbrar alguma imagem agradável no seu espelho rachado. É claro que sempre há gente decente. Gente rara e decente. Mas, a grande maioria é mesmo vil, individualista, truculenta, pouco instruída, e menos cidadã ainda. Nossa perspectiva de pertencimento social é uma piada sem graça de tão repetida, mas, ao mesmo tempo, tão vazia. E, por isso, o nosso conceito de república é tão furado quantos as nossas ruas e estradas. Se é que algo nesse universo possa ser tão furado quantos as nossas ruas e estradas.

O fato é que o nível da fraternidade é uma prateleira muito alta para o tamanho do nosso braço. Primeiro se engatinha para depois andar. Cuidemo-nos por hora. Se cada um aprender a transformar em atitudes e retirar do modo off line o seu instinto de autopreservação já seria um bom começo. Se cada um cuidar da sua vida, pagar os seus impostos, cumprir os seus deveres, exigir os seus direitos, preservar o seu ambiente, fiscalizar os seus candidatos, fizer o seu trabalho, zelar dos seus amigos e familiares, gerir a sua grana, planejar o seu futuro e ainda não prejudicar ninguém, o bem está feito.

Que sejamos egoístas, então. Mas competentes egoístas…

Lógico que existirão ainda momentos onde você poderá oferecer ajuda ou mesmo precisar de alguém. Ajuda é sempre útil e bem-vinda. Bom que venha. Ótimo que vá. Até porque, como dizia o maluco do Raul Seixas:

– Meu egoísmo é tão egoísta que o auge do meu egoísmo é querer ajudar!