O lápis e o dia

16 de setembro, 2017 - por Max Franco

Há dias de todos os tipos.
Há desses dias nos quais penso que vivo feito um lápis. Nasci do tamanho que tive e fui me desgastando. Hoje, talvez, deva sobrar só um toco do lápis que outrora fui. É o atrito patrocinado pela vida. O contato com as gentes, com as coisas, com as coisas das gentes, com as gentes das coisas. Tudo isso vai arrancando, dia a dia, algo seu. Até que lhe resta tão pouco que mal dá para ainda rabiscar uma linha, uma palavra, uma letra. Um dia, mais nada.
Há outros dias, porém. Dias de lápis ao contrário.
Dias nos quais se entende que, de tanto escrever, a letra melhora, o texto aprimora, escreve-se melhor.
Hoje, há dias de se escrever melhor.
Não é todo dia, nem amiúde. Um dia aqui, outro, acolá. Mas, há dias mais do que ontem. Amanhã, talvez, mais dias. Espero.
Já escrevi tanto e muitas vezes. Hoje, decerto, sei que não é quilometragem que define esmero. Não é o muito que determina acerto. Tampouco é o pouco. O que é preciso é o preciso. Escrever precisamente.
Hoje, sei que necessito muito menos do que antes para viver. Libertei-me de andrajos, de embalagens, às vezes, da própria pele. Tanto me pesa que me quero livrar. Pouco importa, só as importâncias.
Conversas frugais me atemorizam. Tenho tempo a perder, mas só com as melhores perdas.
Tanta gente, tanta gente extraviada na estrada, memórias partidas, cantigas antigas, palavras desmantidas e as melhores promessas ao luz do luar todas quebradas, rotas, esfaceladas…
O mundo, este oco repleto de vazio, despeja a sua cascata de nada sobre as nossas cabeças.
É tanto mentira mascarada de sorrisos sinceros.
É o mundo sendo quem é. Sussurrando dores que não temos, nos empurrando carências das quais não padecemos. Nascemos precisando menos que precisaremos depois, porque acreditamos nos discursos do mundo. E vivemos angustiados, dopados, ansiosos a pagar contas por coisas das quais não necessitamos.
Convenceram-nos e venceram.
E todos perdemos.
Eu quero perder essas perdas.
Ganhando só o que importa, de fato, importa.
Porque eu sou hoje o lápis ao contrário. À medida em que escrevo, cresço.