Um sujeito sem predicado

18 de abril, 2017 - por Max Franco

Se eu fosse um professor de Língua Portuguesa, qual história contaria para envolver os meus alunos?

Era uma vez um Sujeito. Mas, não era um Sujeito simples, porque nascera sem predicados.
Todo mundo sabe que Sujeito pede predicado e que sujeitos despredicadizados são exceções das exceções.
Tanto que o nosso Sujeito mutilado vivia tristonho porque sofria bullying aonde quer que fosse. Não importava o adjunto adverbial de tempo ou lugar, bastava sair de casa para ouvir todo tipo de escrutínio dos seus colegas de sintaxe. A análise sintática ocorria corriqueiramente.
Isento de predicado, o nosso Sujeito era um tipo triste e solitário. Em outras palavras, mesmo decepado de predicado, ele tinha predicativos crônicos.
Certo dia, no entanto, aconteceu algo inusitado. É assim com as palavras. Elas se relacionam e tudo pode ocorrer. Desta feita, o Sujeito deficiente topou com um Predicado no meio de um parágrafo. O que o surpreendeu foi que o tal Predicado não era um daqueles nominais com sujeitos definidos, mas um predicado totalmente desasujeitado.
Os dois desajustados se conheceram e se reconheceram. Sem perder tempo, Sujeito e Predicado escolheram um banco e se sentaram, cada um identificando no outro aquilo que tanto buscava. Foi com muita alegria, por exemplo, que o Sujeito percebeu que o Predicado concordava plenamente consigo em tudo que exprimia. Nunca na sua vida, ele havia encontrado tal sintonia. A amizade foi imediata e instantânea.
Sujeito e Predicado se tornaram amigos inseparáveis e não desgrudavam em nenhum momento. Todavia, em todas as histórias, há sempre uma conjunção adversativa. E nesta, não foi diferente.
Tudo ocorreu porque um Adjunto totalmente nominal com problemas de autoestima, se sentindo um elemento secundário, muitas vezes desnecessário na oração, decidiu jogar areia na amizade que invejava. Era imperativo acabar aquela concordância toda. A regência deveria passar para as mãos dos excluídos, era o que pensava. Estava na hora dos termos essenciais serem destronados. Por isso, na primeira oportunidade em que o Sujeito estava oculto, o Adjunto juntou coragem e sussurrou no ouvido do Predicado o seu veneno.
O resultado não poderia ter sido melhor!
O Predicado descobrira que podia viver bem sendo independente. Que poderia sair por aí como uma oração sem sujeito porque ninguém o discriminaria por isso.
O Sujeito, então, outrora tão feliz, voltou a ser o mais solitário do planeta gramatical.
Entretanto, o tempo fez o seu melhor e passou. Como sabemos, muita coisa pode ocorrer quando o tempo passa, inclusive nada, inclusive tanto. Mas, foi que, numa manhã de domingo, outro Sujeito se deu conta do sujeito solitário. Vamos apelidar este sujeito de “Escritor”!
O Escritor avaliou o Sujeito e, observando os seus inúmeros adjetivos, o elegeu como protagonista do seu texto. Não demorou para que  o pequeno texto virar livro e, depois, para o livro se transformar em sucesso. O Escritor percebeu que tinha nas mãos um Sujeito dos mais determinados. Afinal, não é toda hora que se encontra sujeitos deste naipe. Sujeitos substantivos e substanciais não estão dando sopa por aí facilmente. O Sujeito, então, ganhou filme, peça de teatro, parques na Disney, e muitos outros livros.
Desde então, nunca mais faltou predicados ao nosso Sujeito. Na verdade, todos os dias, milhares de olhos o procuravam para saber o que fazia, pensava, sentia, amava… Pelas mãos do Escritor, ele se tornara um dos Sujeitos mais acompanhados em todo o mundo. E, sem dúvidas, um dos mais amados.
Desde então, nunca mais se sentiu solitário.
O Predicado, antigo amigo, porém, conseguiu a sua independência, mas viveu a sua vida sozinho.
O Adjunto, por sua vez, foi esquecido. Não entrou na história nem na História.
Porque, como sabemos, o que realiza um Sujeito é história.