A cadeira

31 de janeiro, 2017 - por Max Franco

Ana era uma profissional aplicada. Exemplar em tudo que fazia. Uma chefe que sabia liderar pela autoridade definida e pela autoridade natural, ambas conquistadas depois de anos de experiência, estudos e muito esforço.Ana conseguia uma química difícil de balancear na sua postura de líder. Ela era humilde sem ser subserviente, empática sem ser permissiva e, principalmente, era proativa sem ser autoritária. No entanto, a característica que era mais admirada nela era a sua dedicação ao ensinar a cada funcionário da sua equipe. Ana acreditava que uma boa empresa deveria ser, antes de tudo, uma escola. Que todos deveriam aprender e ensinar num dia de trabalho.

Lembro-me de certa vez em que lhe busquei com um problema:
-Então, este era o problema que você queria tanto me contar, Alfredo? – perguntou com aquele velho sorriso nos lábios. Não era um sorriso de desdém, ou, pior, condescendente. Mas, um sorriso encorajador. O mesmo tipo de sorriso que um pai oferece ao filho que está aprendendo a andar de bicicleta. Um sorriso que diz: vai, você consegue.
– Sim. Era isso. Estou preocupado com esse procedimento faz semanas. Acredito que, se continuarmos a fazer deste jeito, o prejuízo só tende a piorar. Temos que alterar que o nosso comportamento e com urgência.
– Certo. Concordo. – disse ela me olhando nos olhos fixamente. – E o que você sugere?
– Não sei, Ana. Só sei que está errado do jeito que está.
– Bom… Então, vamos ter que dormir com este problema. Mas, não será por muito tempo, porque amanhã você vai voltar a me procurar com ao menos três soluções para para esta questão. Você precisa de mais tempo?
Senti que a resposta errada seria “sim”. Senti também um frio glacial subindo do estômago, mas não titubeei. Preferia um chute nos países baixos do que demonstrar fraqueza logo para ela. Eu a respeitava demais para decepcioná-la.
– Lógico que não. Amanhã, trago as alterações que você me pediu.
Dormir com o problema foi forma de dizer. Afinal, quem foi que dormiu naquela noite? Problemas, realmente, não são os melhores companheiros de cama. Em nenhum dos aspectos.
As primeiras horas da noite não poderiam ter sido mais infrutíferas. No entanto, depois de algumas xícaras de café e de um muitas estratégias jogadas no papel, enfim, consegui arrancar do cérebro algumas alternativas que poderiam funcionar como saídas razoáveis.
A manhã chegou depressa, mal me permitindo tomar um banho frio (para despertar) e correr para o escritório.
– Então, Alfredo. – começou ela com um olhar de expectativas. – Onde estão as minhas encomendas?
– Todas aqui, Ana. Deixe-me mostrar as opções que lhe trouxe. – disse já abrindo a tela do laptop.

Foram 40 minutos de exposição e, durante todo este tempo, ela mal piscou. Ana se debruçou sobre os meus projetos com genuíno interesse, perguntando cada detalhe e aparando as pequenas arestas que ainda permaneciam. O mais interessante daqueles minutos foi que, durante todo o tempo, eu me senti o sujeito mais importante do mundo. Até quando me criticava, eu via que o fazia me valorizando. Ela era uma educadora nata.
– Eu fico com a segunda alternativa, Alfredo! – disse ela animada. – Estou segura de que, com algumas pequenas adequações, é a melhor solução para o nosso problema de processo interno. Precisamos rapidamente de uma reunião com a equipe para mudarmos o nosso posicionamento. Você se prepara para conduzir o treinamento?
– Eu?! – perguntei assustado. – Nunca fiz nada do gênero.
– Claro que é você que deve tomar à frente. O filho é seu. Pegue no colo e crie a criança.
– Não vou lhe desapontar, Ana! – falei encorajado.
– Nunca achei que iria. Você vai longe, Alfredo.
Hoje, anos depois, sou eu que me sento na cadeira que era da Ana. Ela se aposentou faz dois anos, mas ainda me lembro de tudo que me ensinou e tento repetir com a equipe que me cabe liderar. Antes de sair, porém, eu tinha uma pergunta para lhe fazer e fui ter com ela.
– Você se lembra daquele dia que cheguei aqui morrendo de insegurança por causa daquele bug no processo?
– Claro que me lembro. Estou velha, mas ainda não senil. Você estava muito incomodado.
– Mas, você sabia, não sabia?
– O quê?
– O que deveríamos fazer. O plano que virei a noite para montar. Você não me disse porque queria que eu mesmo encontrasse a solução. Você queria o meu engajamento total no projeto. Como você costuma dizer: Estamos mais dispostos a darmos o sangue pelos projetos que nós criamos. Confesse.
– Estou aposentada, Alfredo. Hoje, estou liberada de todas as minhas obrigações. Sucesso para você. Você vai longe. Eu lhe disse. Você vai longe.- disse ela com o velho sorriso. Apertou a minha mão e saiu da sua antiga sala para nunca mais voltar.