Quase sem querer

13 de maio, 2016 - por Max Franco

 

           Tenho andado distraído. Sempre amei essa música, sabia? E é simplesmente um deleite ouvi-la. Ainda mais  nessas ocasiões especiais.

           Impaciente e indeciso. De certa forma  – sei lá – ela parece contar a minha história. Música boa é aquela que ouve você antes mesmo de você ouvi-la.

E ainda estou confuso. É uma das poucas músicas que sei a letra do começo ao fim. E, não sei se ocorre só comigo, mas adoro trabalhar escutando música. Na verdade, adoro fazer tudo ouvindo música. É como poder escolher a trilha sonora do seu próprio filme.

Só que agora é diferente. Acho, realmente, que o Renato é o nosso Jim Morrison. Só fui me dar conta disso faz uns dias, já faz quase vinte anos que ele morreu, sabia? Para dizer a verdade, acho que nunca superei a morte do Renato. Já do Jim foi mais fácil.

Sou tão tranqüilo e tão contente. Na verdade, sempre olhei para ele como fosse um irmão mais velho que me entendia mais do que qualquer outra pessoa. Alguém que me compreendia e até me orientava. Renato era o meu guru. Um guru melancólico, triste.

           Quantas chances desperdicei. Isso é verdade. A minha vida já foi uma coleção de desperdícios e de omissões. Fui ótimo, praticamente insuperável, na vulgar arte de não produzir nada que prestasse. Até recentemente…

Quando o que eu mais queria. Agora vem a parte de que gosto mais. Presta atenção, menina:

Era provar pra todo o mundo. Era provar pra todo mundo! Eu canto bem, não é verdade? Admite! Admite! Eu canto bem pra caramba!

Que eu não precisava. Que eu não precisavaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!

Provar nada pra ninguém. Isso me emociona. Realmente, me leva às lágrimas. Sabe por que, menina? Hoje sim, enfim, depois de tudo pelo que já passei, por uma porrada de humilhação, por maltratos de todos tons e naipes, posso enfim dizer que não preciso mais provar nada pra ninguém.

            Me fiz em mil pedaços. Fiz sim. Já me despedacei. E hoje despedaço.

          Pra você juntar. Pena que teve que ser você, menina, só porque tem esses olhos lindos..

E queria sempre achar. Mas, você não vai sofrer, criança. Juro! Vai ser um talho rápido na jugular. Não se mexa, menina! Esses nós são intransponíveis! Não vai adiantar nadinha se debater! Não tente se soltar que só vai dificultar o meu trabalho e você pode acabar sentindo alguma dor. Tem coisa mais intolerável do que dor? Por isso, fique quieta e me deixe trabalhar. Eu, simplesmente, odeio trabalho mal feito.

          Explicação pro que eu sentia. Mais uma incisão em cada pulso e, pronto. Isso! Perfeito! Só um beliscão! Foi de uma precisão cirúrgica, não foi?! Admite que sou bom no que faço! Admite!

Como um anjo caído. Pronto, menina! Agora falta pouco. Vou lhe transformar num anjo. No anjo mais lindo de todos. Você nunca irá enfear. Nunca padecerá das agruras do tempo. Nunca ficará marcada por rugas e, melhor: sempre será lembrada bonita, fresca, jovem. Porque nada substitui o viço. Nada! Quem louva os cabelos grisalhos, a experiência, é porque não quer ficar na pior. Não quer admitir o óbvio. E o óbvio é que nada supera a juventude. E isso que lhe estou presenteando: a juventude eterna! Não precisa agradecer! Eu só faço porque esses gestos de generosidade são da minha natureza.

Fiz questão de esquecer. Fiz questão de esqueceeeeeer! Mentira. Essa é única mentira da música toda. Eu faço é questão de lembrar! Quero me lembrar de tudo. De cada segundo. De cada belíssima cena de tudo, tudo, tudo… e de todas elas. De todas que ajudei a partir. De todas que embelezei para sempre.

Que mentir pra si mesmo. No fim, mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira, e a que mais repetimos. Todos, de uma forma ou de outra, pecamos por autocalúnias.

É sempre a pior mentira. É sempre a pior metiraaaaaaa. Sabe de uma coisa, menina? Eu odeio mentira. Sim, odeio. Não estou lhe mentindo quando digo que rejeito mentira. Seria uma mentira sobre a mentira, não seria? Mas, pode acreditar. Não estou lhe mentindo nadinha.

Mas não sou mais. Decerto não sou mais tão ingênuo. Há males que o tempo cura. Mas, para dizer a verdade, a maioria das coisas só pioram com o tempo. Até o próprio tempo piora com o tempo.

        Tão criança a ponto de saber tudo. Porque, é verdade, só os jovens sabem tudo. Depois, colecionamos interrogações. Amealhamos dúvidas. Arrecadamos questões. Cevamos decepções. É que envelhecer desilude.

        Já não me preocupo se eu não sei por quê. É mesmo! Hoje, não mais me ponho em xeque por ser o que sou e por fazer o que faço.

Às vezes, o que eu vejo, quase ninguém vê. Disso, tenho a maior das convicções. As pessoas não vêem o mundo da forma que vejo. Sei que possuo um olho diferente. É como se tivesse um terceiro olho, entende? Estou certo de que vejo o que ninguém mais vê.

E eu sei que você sabe, quase sem querer. E agora você também está vendo, menina. Agora que sangue escorre do seu corpo, que a vida escoa profusamente do seu ser, eu sei que você vê tudo mais bonito. Sei que você vê a glória.

Que eu vejo o mesmo que você. Não é maravilhoso? Agora que os seus olhos se fecham para sempre é que você pode, finalmente, enxergar o que mais merece ser enxergado.

         Tão correto e tão bonito. O postmortem é como sonhar. O Além é um sonho do qual ninguém quer mais acordar. Claro que é. A sua consciência vai se libertar e viajar pelo infinito e o infinito…

O infinito é realmente…  Claro que é. Caso contrário, a vida seria uma pegadinha sem graça. Só há sentido no infinito. No cosmos no qual a sua consciência, nesse exato momento, está vagando. Tudo é harmonia, não é? Que inveja tenho de você! Agora que não pode mais ver, bem que você poderia me contar o que está vendo.

um dos deuses mais lindos! Por isso, parta, menina! Não finque os pés aqui. Não há nada para se agarrar nessa vida tão amarga e cercada por tanta gente tão má e fria. Siga seu caminho! Não nada por aqui que justifique uma estada tão longa.

Sei que, às vezes, uso. Durma o sono sem volta! E cumprimente as outras que já enviei para o mundo dos sonhos felizes. Outras ainda lhe acompanharão. Muitas outras. Por isso, tenha paciência, mocinha.

Palavras repetidas. Tenho medo de palavras, sabia? Palavras são terríveis, minha amiga moribunda. Palavras são sempre as piores armas, principalmente quando empunhadas pelas piores bocas.

       Mas quais são as palavras. Palavras são letais e podem machucar mais do que essa navalha que trago nas mãos.

       Que nunca são ditas? O problema da palavra é a portabilidade, amiga. Navalhas quase nunca estão à mão. Já palavras…

      Me disseram que você. Palavras são lícitas e, pior, inegotáveis. Não há para essa munição. Palavras, ainda, podem ser usadas sempre, em todo lugar, à toda hora,  por toda gente contra toda gente. E podem ferir sempre. Palavras são instrumentos perigosos.

       Estava chorando. Ninguém é imune a palavras. Infelizmente, não há colete à prova de palavras. Por isso, elas continuam ferindo, machucando, e magoando.

        E foi então que eu percebi. Você, ao menos, nunca mais será magoada, nem com palavras nem com mais nada. Isso eu lhe juro. Você acaba de receber a maior de todas as dádivass. Você está protegida pela morte e a morte é uma muralha que nunca ninguém foi capaz de transpor.

        Como lhe quero tanto. E, por isso, você será sempre minha. Porque roubei a sua vida. Quem rouba vidas merece status privilegiado, merece intimidade.

        Já não me preocupo se eu não sei por quê. Roubar vida, afinal, não é o mesmo que dar vida?

       Às vezes, o que eu vejo, quase ninguém vê. Eu sei que você, agora, vê também.

Agora que você não vê mais, seus olhos se abrem para uma nova vida. E você não tem ideia de como ter lhe presenteado essa visão maravilhosa me deixa feliz.

E eu sei que você sabe. E eu sei que você sabe. Desculpe o desafinado da voz. É o embargo da emoção. Agora sim você sabe, menina morta linda de morrer!

       Quase sem querer. Sim, foi mesmo quase sem querer. Esta música é realmente perfeita. Ela diz tudo que quero dizer. Só é uma pena que você nunca poderá sequer me agradecer pelo bem que lhe fiz.   

       Que eu quero o mesmo que você. Que eu quero o mesmo que você!