Palavras amargas

02 de abril, 2016 - por Max Franco

Palavras amargas

 

 

Escrito Ao lado da porta:

Olá, estranho!

Alô, estranha!

Você vem sempre por aqui?

Desde o tempo em que essa pergunta era apenas velha.

E você é sempre rude assim?

Só com quem faz perguntas infames, ainda mais nessa hora da madrugada.

E se eu nunca mais lhe fizer nenhuma pergunta você passa a me tratar bem?

Não sei.

Por quê?

Essa é mais uma pergunta.

 

Debaixo da janela.

Olá, estranho!

Alô, estranha!

Há quanto tempo, não é?

Pois é, vinte quatro horas podem ser intermináveis…

Você não sabe usar outro recurso além da ironia? Já está ficando previsível.

Se você me acha desagradável por que ainda fala comigo?

Ah, não sei. Acho que gosto de você.

Eu também.

Você também gosta de mim?

Não. Eu também gosto de mim.

 

Atrás da televisão.

Eu quero lhe dizer uma coisa: ainda bem que ninguém é dotado de telepatia.

Por quê?

Porque eu acho que já estaria presa se lessem a minha mente. É que, às vezes, penso os pensamentos mais inconfessáveis.

Pensar é de quem tem neurônios. Pior é aquele que padece de neurônio solitário. Há cabeças que são refratárias a qualquer modalidade de inteligência.

Adorei o seu perfume hoje.

E o de ontem não era bom?

Não deu pra saber. Ontem você não chegou nem perto de mim.

Estou evitando, não percebe?

Ah, então você está mesmo me escanteando?

Claro que estou. O pessoal já está se dando conta…

Dando conta de quê, homem?

Da sua apaixonite por mim, ora! Está escrito na sua cara em alta resolução. Tela de led, eu diria.

Você é um grosso e um pretensioso. Não falo mais com você.

 

Acima do quadro.

Agora fudeu. Acho mesmo que os deuses se divertem fazendo bullying comigo. Não era para ter sido assim…

Lógico que era. Sempre fantasiei beijar você dentro do almoxarifado…

Não foi isso que eu quis dizer, moça. Estou dizendo que esse beijo nunca deveria ter ocorrido.

Não diga isso que você me magoa!

Essa nossa história está indo longe demais!

Longe demais? Longe demais? Há meses que estamos nessa lengalenga e você diz que um beijo roubado é ir longe demais! Imagine se a gente…

Não diga! Não fale essa palavra!

Ora, por que não?

Porque palavras têm força própria. Palavra é troço temperamental. E pior: palavra é coisa exibicionista. Palavra quer ser lida, ouvida, cantada…

Só me faltava essa! Que mal pode cometer uma palavra?

Que mal? Não sabe? Antes da guerra vem a palavra. Antes do genocídio vem a palavra. Palavra move o mundo! Constrói e destrói civilizações. Palavra ergue catedrais e campos de concentração. Porque se você ousar pronunciar a palavra já está feito e consumado.

Pois então, a partir de agora, a repetirei mil vezes ao dia, como um mantra: quero que você me coma! Quero que você me coma! Quero que você me coma!

 

Sob a mesa da cozinha.

Olá, estranho!

Alô, minha ternura!

Ternura? Ternura se tem até por um gato. Quero é ser seu tesão.

Você sabe que é  que é e será sempre mais.

Sou? E apenas eu sou?

Claro que sim. Mais ninguém.

E a sua mulher, o que é? Sua paixão?

Minha companhia. Minha sócia. Dividimos despesas e responsabilidades.

Nada mais do que isso?

Sócios que dormem juntos! Garanto, minha ternura, meu deleite. Sócios, Apenas. E ainda mais depois de você!

 

No teto, ao redor do lustre.

Olá, estranhamente gostoso!

Alô, estranhamante!

Ontem, você foi acima de qualquer expectativa.

As suas expectativas que eram baixas em relação a mim, confessa!

Se fossem, não teria feito tudo o que fiz para vivermos essa loucura. Sempre soube dos seus talentos. Estão pendurados nessa sua boca pedinte de beijos. Mesmo calada. Principalmente calada. Eternamente reclamando beijo.

Adoro quando você fala poeticamente.

Adoro quando você fala no meu ouvido.

Adoro quando você geme no meu ouvido.

Adoro quando você enfia a língua no meu ouvido.

Adoro quando você fica – por intermináveis minutos – naquela vibração contínua, naquela doce procura à cata do paraíso que você guarda dentro desse seu corpo de fábula de princesa. É lindo de se ver. Seus olhos fechados na indescritível concentração da busca. A sua boca aberta de hálito morno. Você toda morna. Seu corpo úmido retesado, tenso, soando como um instrumento musical pronto – a qualquer segundo – a tocar a mais bela nota. Até que você treme, treme, treme…

Amei. Amei. Então, eu sou o seu violão e você dedilha em mim a mais incrível das melodias?

Claro! Sempre!

Pois quero recitais, espetáculos, turnês…

 

Debaixo da pia do banheiro.

Acho que ela está desconfiada.

Não acredito. Por que você diz isso?

Ela está… Sei lá. Esquisita, sabe?

Não sei não. Não será só impressão sua?

Não sei. Quando se vive no erro a gente não se flagra sempre numa mania de perseguição?

Sempre. É o preço do pecado.

Não quero pagar esse preço, é alto demais.

Você acha mesmo que todo aquele prazer que tivemos ficará de graça? Impossível. O céu tem pedágio! O céu tem pedágio!

Não diga isso, já lhe falei das palavras. Palavras tomam corpo, palavras…

Fodam-se as palavras! Foda-se a sua mulher! E nós, o que faremos?

Fodemos!

Não brinca, diz!

Não fazemos. Brinquemos de morto! Esperemos pelo tempo. O tempo o dirá. Um dos expedientes mais adequados para uma pessoa inteligente é saber exatamente a hora de se fazer de idiota, e, principalmente, de calar-se.

O tempo é um velho sisudo. Não é banguelo, já que morde, mas é mudo. Somos nós sempre que falamos, meu bem! Qual será a nossa fala?

A nossa fala será mudez.

 

Acima das prateleiras.

Não agüento mais. Preciso lhe ver.

Você me vê o tempo todo.

Preciso é lhe ver todo. Ver e não poder tocar só agrava a situação. Sou materialista, você sabe. Preciso tocar, por na boca, sentir o cheiro. Você me urge!

Eu sei. Eu sei. Mas temos que manter a discrição. Você sabe que se isso for descoberto nos acarretaria um escândalo. Seria fatal para nós. Pense nos nossos empregos, nos nossos cônjuges, nos nossos filhos…

Acho que você inventou essa história de que ela está desconfiada porque não quer mais me ver, não foi? O que houve? É aquela estagiária nova, não é? A de cabelo preto, novinha, carinha de que chupa…

Meu Deus! Meu Deus! Que inferno! Já lhe disse: não há nada disso! Você está enlouquecendo, mulher? Temos só que ter cuidado. Cuidado. Nada mais do que isso: cuidado!

 

No centro da sala, ao lado do quadro.

Apaixonado é refém de si mesmo!

Começou a cantilena de novo?

A paixão é tortura tácita!

Você vai adoecer, mulher!

Nunca mais me apaixono!

Ah, amor. Suas palavras são bonitas, mas você silencia como ninguém…

Ela faz melhor do que eu? Você também filma as trepadas? Guarda tudo num pen drive e mantém escondido?

Por que toda vez você faz isso? Por que a gente não pode ficar tranqüilo e viver sem agressões?

Por quê? Por quê? Porque o chefinho Casanova decidiu virar um clichê ambulante e comer a estagiária. Seu nome agora é Clinton. Pronto, rebatizei.

Não começa…

Ora começa! Quem começou foi você! Você é muito sonso! Detesto gente assim! Gente como você deveria fazer fisioterapia no caráter.

Dá fim nesse papo, moça e, por sinal, acaba com aquela cara de terrorista que você anda

expondo na repartição. O povo já anda comentando…

Pois saia comigo, só mais uma vez! A nossa despedida. Não mereço despedida? Todo mundo merece despedida. Até o Edmundo teve despedida!

Não vem com essa de novo! Eu quero paz.

Paz? Paz? Quer paz maior do que aquela que eu lhe dava? Eu via a paz pousada no seu rosto depois de que a gente…

Eu sei. Eu sei. Não fale essa palavra! Pois então a gente sai. Sai pela última vez. Sai pra fechar a porta e jogar a chave por debaixo. Sai pra nunca mais entrar.

 

 

Do lado do aparelho de ar condicionado.

Olá, estranho.

Alô, estranha.

Já sei onde vai ser a nossa lua de mel?

Lua de mel? Tá de sacanagem, não é?

Você prometeu que a gente iria viajar…

E vamos. Mas, só por um fim de semana. Você sabe. Alegarei aqui um seminário da empresa.Não dá para ser por mais tempo.

O tempo é o maior dos tiranos.Você sabe. Tempo, seu nome é chicote.

Mas, vai ser maravilhoso, não vai?

Ao seu lado sempre é.

Você diz isso pra todo mundo. Deve ter dito para aquelazinha. Você mente como respira.

Mentira, eu respiro você.

Então, você mente como respira.

 

Bilhete deixado dentro da gaveta no birô do trabalho

Fudeu! Fudeu tudo!

Ela descobriu tudo. Sei lá como. Invadiu meu computador e teve acesso a todas as nossas conversas. Quem inventou a internet foi o cão. Fudeu tudo! Você não acredita no que ela fez: Ela passou o fim de semana inteiro transcrevendo nas paredes do nosso apartamento todos os nossos diálogos. Todos. Todos. Não havia um espaço vazio em toda a casa. Nada. Tudo preenchido por dezenas e dezenas de conversas. E agora não sei o que fazer com ela. Não come. Não bebe. Letargia total! Ela apenas permanece sentada – o dia inteiro, a noite inteira – defronte as paredes e lê, em silêncio, e chora, e chora, e chora… Eu também chorei. Na verdade, fiquei de joelhos e implorei clemência. A razão tem corações que só coração conhece. Pois é… Por isso, estou saindo da cidade. Me perdoe. Não tem outro jeito! Pedi transferência para outro estado. Foi uma das promessas que fiz para ela me aceitar ainda em casa. O pior é que não sei o que vai ocorrer com você. Em todo o caso, eu lhe sugiro: conte para o seu marido antes que ela conte. Não acho que ela vá deixar você sair dessa sem ágios. Você tinha razão. A paixão é uma desgraça. A paixão é tortura tácita. Apaixonado é refém de si mesmo! Adeus, estranha! Adeus! Eu te falei: palavra é troço temperamental. Palavra gosta de se expor. Há palavras malditas, palavras amargas, malditamente amargas…

 

 

FRAGMENTO DO LIVRO PALAVRAS AMARGAS, PREMIADO PELA PREFEITURA DE FORTALEZA COMO MELHOR LIVRO DE CONTOS DE 2012 – PRÊMIO OLIVEIRA PAIVA