O velho e a Morte

02 de abril, 2016 - por Max Franco

O Velho e a Morte

 

 

Ele era velho.

Para dizer a verdade, já havia décadas que era considerado velho por todo mundo.
Além do mais, ele era mesmo velho e sabia disso.

Para piorar, saúde lhe era troço refratário. Largado numa rede ensebada há mais de ano, mal abria os olhos. A vida toda suportando saúde debilitada não lhe sugeria mais nada senão esperar a algoz que nunca lhe parecia tão distante: a Morte. Afinal, todos – sem exceção – esperavam que, mais dia menos dia, teriam que comparecer ao seu funeral portando os discursos instantâneos e previamente preparados: Morreu como um passarinho, o coitado! A morte teve piedade do velho! Enfim, descansou.
Morreria, mas não morreria com incomodidades. Era o que defendia. Testamento lavrado, terno pendurado e terreno escolhido no discreto cemitério. Até já escolhera a covazinha, resguardada por uma sombra frugal. Afinal, sonho de todo morto é ser pranteado. E nada como uma boa sombra para ajudar a atrair as eventuais lágrimas e comiserações.

Certo dia, ele acordou com uma idéia pululando na sua cabeça e decidiu mudar tudo! Morrer em doses homeopáticas estava dando mais trabalho que imaginava. Queria agora era morrer de uma vez, pagamento à vista, sem preliminares. E como nesses tempos ligeiros até a expressão “para sempre” é efêmera, decidiu que iria morrer peibufo! Foi aí que decidiu adiar esse negócio de morrer e quis conhecer o mundo.
Despediu a família que parasitava seu teto e a sua pensão. Vendeu a casa. Juntou as economias. Mandou às favas todo mundo que aguardava a divisão seu espólio e saiu pela porta com mochila nas costas. Isso foi há oito anos. Diz-se que está ainda vivo e bem. No ano passado, postou no instagram uma foto sua, esquálido como sempre, mas bronzeado. Estava num cruzeiro para Noronha ao lado de uma coroa vistosa. Havia uma legenda:

– Ainda apenas um principiante nessa tarefa de viver.

E assinou: o velho.

E a morte?

A morte decidiu esperar com paciência pelo velho vivedor, mas – nesse ínterim – não lhe faltou cliente para se entreter.

EXTRAÍDO DO LIVRO DE CONTOS PALAVRAS AMARGAS

 

– Prêmio Oliveira Paiva de melhor livro de Contos, 2012, SME Prefeitura de Fortaleza