Dos infernos

28 de fevereiro, 2017 - por Max Franco

Uma noite eterna estende sobre esses desgraçados o sombrio véu das suas trevas. (…)Ajoelhamos depois, e fizemos as nossas rezas. Mal as acabamos, de todos os lados se erguem sombras e fantasmas que nos rodeiam. Eram os habitantes dos Infernos que nos vinham receber.” (Ulisses chega ao Inferno, A odisseia de Homero)

Deixai toda esperança, ó vós que entrais!” (A divina comédia, Dante Alighieri) 

 

 

– Não é verdade que o inferno é quente, sabia? – disse o homem sentado ao meu lado no café.

Eu tenho vícios, Preciso confessar ao menos os confessáveis já que alguns não o são. Entre estes de natureza venial, o do café crônico, várias vezes ao dia. Sempre me disseram que me faria mal, mas nunca acreditei. Até aquele momento…

– Perdão, moço. – retruquei hesitante, querendo mais um tratamento de canal do que entabular um longo papo sobre a temperatura do inferno com um estranho. – Eu não entendi a questão.

– Todos dizem que o inferno é quente. Eu duvido. – O homem completou e percebi que tremia um pouco.

– Para você…

– É gelado. – respondeu, antes mesmo de verificar se partiria de mim alguma pergunta. A propósito, não partiria. – Nas mitologias gregas, romanas, nórdicas, judaicas, não há fogo no inferno. Até para Dante o fogo só ocorre em alguns círculos.

– Você é um expert em religião?

– Não. Em inferno.

– Entendi. – Na verdade, não havia entendido patavina.

– Cada cultura tem seu respectivo inferno. – sussurrou o homem enquanto molhava os lábios com um chá de aroma esquisito. – Tártaro, Niflhem, Tuonela, Submundo, Casa das mentiras, Tuonela, Geena, Duat, AL Hutama, Hades, inferno…  Todos têm algumas características muito específicas e até coincidências, sabia? Por exemplo, o rio e o barqueiro. Muitas crenças citam estas travessias…

– Por que você se interessa tanto no inferno. Medo do futuro?

– Nada disso. Medo do presente.

– Não entendi. – Enfim dizia a verdade.

– Muitos vivos desceram ao submundo, meu amigo. Orfeu, Odisseu, Aquiles, Eneias e Dante.  Jesus desceu à mansão dos mortos. Isto se chama Catábase. É uma jornada mística de terrível sofrimento…

– Você, por acaso…

– Na verdade, estou agorinha mesmo. Estou fazendo a minha catábase e me esforçando para que venha logo a anábase.

– Anábase?

– O caminho ascendente, o de volta.

-Todos voltam desta jornada?

-Não. Alguns ficam por lá para sempre.

– Sempre dura muito. Então, para que serve esta expedição?

– Toda viagem é para se buscar algo.

– Você já achou?

– Encontrei… Encontrei alguma coisa. Algumas revelações, certo esclarecimento… Talvez, ainda falte algo. Talvez… Talvez, ainda tenha que descer mais. Não sei. Você saberia?

– Eu?! – lhe perguntei assustado. – Como eu saberia?

– Você tem cara de que já fez este caminho. Por isso lhe interpelei. Você não teria um mapa, teria? Um GPS seria ótimo!

– Desculpe-me, moço. – disse-lhe incomodado. – Não sei por que você me veio com esta pergunta…

– Quando a gente está perdido, amigo. Completamente às escuras, atacado pelo medo mesmo no dia mais claro, pelo frio mesmo na tarde mais quente, o jeito é pedir indicação.

– Para cima. Não siga em frente nem desça mais. Não vire à direita nem à esquerda. Apenas suba. Suba, meu amigo. – Disse-lhe e saí tão apressado que nem paguei o café. Maldito café frio.