A pena e a rocha

13 de novembro, 2017 - por Max Franco

– Ele não vai sair dali nunca! – Disse Guilherme durante o almoço com os colegas.

– E por que deveria sair? – Perguntou Débora. – Ele não faz nada de errado…

– Este é o problema do Jocélio: ele não arrisca. Faz sempre o mesmo. Meticulosamente o mesmo. Ele até toma café e vai ao banheiro nos mesmos horários.  – Falou Pedro, contribuindo com a discussão.

Jocélio estava na Empresa fazia anos. Tantos anos que os demais nem sabia ao certo quanto tempo era. Já tinha virado uma espécie de monumento corporativo. Ele e o birô de mogno que ocupava davam o mesmo tom, de algo tradicional e seguro, mas também, de aspecto velho e pesado. Jocélio era um ponto de referência. Uma rocha dentro da corporação. O problema das rochas, porém, todo mundo sabe. Rochas são difíceis de mover. Mas, os seus predicados não eram, de todo, questionáveis. A sua natureza mastodôntica havia lhe garantido uma gerência. Nada muito vistoso. Mas, respeitável.

– Ele não propõe projetos, não traz ideias, não se compromete, não protesta…

– Ele é pontual, discreto, assíduo… Certamente a Empresa reconhece o seu valor, se não já teria saído, como outros.

– Você quer dizer como o Felipe.

– O Felipe era um doido. Chegava atrasado. Desorganizado. Não combinava roupa. Dizia o que lhe vinha à cabeça. Era um estabanado. Já o Jocélio dança conforme a música. Ninguém vai tirar ele dali nunca.

– Mas, era o Felipe que tinha as melhores ideias. Não se lembra? Os projetos mais arrojados que a Empresa adotou foram da autoria de quem? E quem mais tinha coragem de dizer o que deveria ser dito ali dentro?

– Realmente! A Empresa deve muito ao Felipe, mas ninguém reconhece. Por isso, que estamos naquele marasmo. Nada mais de notável foi criado depois que ele saiu.

– Ora vejam quem anda por aqui! Que coincidência enorme!

– Oi, pessoal! Qual é a coincidência? – Perguntou Felipe animado. – Posso me sentar com vocês?

– Essa bermuda, homem, no meio da semana? Ainda desempregado?

– Eu?! Não. Estou vindo do trabalho, mas agora de tarde vai ser home office.

– Como assim? – Interrogou Débora, interessada.

– Gente, a melhor coisa que me aconteceu foi sair da Empresa. Na verdade, aquilo foi “cair para a cima”! Eu não combinava com aquele tradicionalismo todo. Cada chave deve buscar a própria fechadura. Era burocracia de mais  para assertividade de menos. Hoje, estou numa startup bacaninha. Ganho menos, mas tenho participação nos lucros. No futuro, vai compensar bastante.  Lá, eles têm preocupação apenas com as entregas. Eu não preciso seguir horários nem padrões de vestimenta.  Na sexta-feira, por exemplo, tem até umas rodadas de cerva para todo mundo.

– Eu não acredito! – Soltou Guilherme. – É desse jeito? Isso existe?

– Claro que existe. As coisas mudaram, meus amigos! Cada um deve buscar onde se sente melhor e mais produtivo. Há todo tipo de empresa hoje em dia. Estas tradições não são eternas. Eterno, só o Jocélio. Cadê ele?

– Ora “Cadê”? Onde estaria?

– No birô de mogno, é claro!

E todos riram. Alguns com uma inveja danada do estabanado.