Conto de natal

14 de abril, 2016 - por Max Franco

Conto de Natal
Não poderia afirmar que o ônibus estivesse lotado, porque, de fato, não estava. As cadeiras estavam todas ocupadas e um ou outro passageiro freqüentava aqui e ali o corredor do coletivo, mas não dava para reclamar se comparasse com a habitual aglomeração nas entranhas dos ônibus em Fortaleza.
Ultimamente, trânsito era um assunto que era habitué no meu pensamento e, com certeza, de outros fortalezenses também. A desordem urbana estava se tornando, cada vez mais, uma chaga social na capital cearense. O ideal seria que verba pública não tivesse o terrível hábito de se desorientar e acabar se perdendo antes mesmo de chegar ao seu destino original.
Eu estava com meu filho de cinco anos. Ele, com aquele olhar pendendo no rosto de tanta curiosidade e fascinação diante da novidade. Para ele, era muito mais inusitado andar de ônibus do que para mim. Tenho impressão, por sinal, que metade da minha adolescência foi amassada, pisada e bolinada dentro de desses transportes atulhados de toda sorte de gente.
Aquele trajeto não teria ficado na minha memória não fosse por um fato específico. O fato específico não tinha mais de seis anos e, também, não mais um metro de altura. Ele poderia ganhar – facilmente – o apelido maldoso de filé de borboleta pela sua envergadura. Na verdade, o garoto merecia o superlativo de macérrimo. Tinha uma tez morena, que, não sei, talvez pelas agruras da vida que levava, ou pela sujeira acumulada lhe caía como uma película gosmenta sobre a sua pele, que tinha uma tonalidade morbidamente acizentada. Como se o concreto da cidade lhe tivesse contagiado.
Ele entrou no ônibus com um olhar completamente diferente daquele que exprimia o meu filho. Traduzi-o como: resignação. Uma longa tortura apreendida, assumida, aglutinada. Um fato ordinário na sua vida, mas, nem por isso, pouco doloroso. O meninote pedia esmolas. Antes, com o próprio corpo; depois com a boca.
Mendigo é o que não falta nessa cidade. Basta parar num semáforo para ser assediado por todo tipo de pedinte. Pedinte aleijado. Pedinte menor. Pedinte mãe com menor menor ainda nos braços. Pedinte palhaço. Pedinte malabarista. Pedinte palhaço malabarista. Pedinte pedinte. Então, por que aquele pedinte passageiro tinha me acenado a atenção?
Chamou, porque ele fixou no meu filho. Isso, fixou! Estacou diante e ficou o estudando demoradamente. Na verdade, eles ficaram. Não disseram palavra, mas estava lá, eu reconheci: a curiosidade. Cada um perplexo com a vida do outro. Cada um cogitando, estudando, explorando a vida do ser diante de si que habitava universos tão semelhantes e, ao mesmo tempo, tão dissonantes. Duas crianças de mesma idade, da mesma cidade, de mesmo idioma, mas de universos distantes. Fiquei parada ali assistindo a dois mundos se observarem.
A vontade absurda que me deu foi de acarinhar a criança. Mas, como não sabia como ele encararia o meu ato, me rendi à covardia e afaguei os cabelos do meu rebento. Foi aí que ele me notou. Deitou em mim olhos maiores do que o mundo e percebi que o mundo, de repente, estava sofrendo um dilúvio. Ele baixou a cabeça como se meio encabulado por ter demonstrado emoções para uma estranha. Não pude evitar cair em especulações. Por que ele tinha se emocionado? Ele teria se comovido porque não tinha mãe? Ou porque tinha mãe?
O menino não me permitiu mais desfiar as minhas indagações e baixou a cabeça fitando os dedos sujos envoltos por uma chinela havaiana carcomida de tanta estrada. Depois, voltou o olhar para os sapatos do meu filho. Um olhar parente daquele olhar do vizinho quando atinou para o meu carro novo.
Pus a mão no bolso para pegar alguma mixaria. Era natal. Todo mundo fica meio bobo no natal. Inadvertidamente, ele me deu as costas e se encaminhou para a porta de saída do coletivo. Tudo foi muito rápido, mas ele interrompeu o passo e fez uma coisa surpreendente: o garoto se voltou, correu para mim e me abraçou com força, com intensidade, com pressa, saindo, e se embrenhando no caos da cidade.
Fiquei lá boquiaberta ruminando as minhas cismas enquanto aquele olhar faminto de possibilidades permaneceu ainda por um bom tempo me apresentando as suas infinitas interrogações.