Entrevista com Papai Noel

22 de dezembro, 2016 - por Max Franco

Estava escuro quando desci na estação ferroviária de Rovaniemi. Não fazia frio. Frio tinha feito na Noruega quando embarquei 12 horas atrás. Ali na Lapônia, ainda mais ao norte, o que imperava era um clima impossível de se descrever. O mais próximo que posso alcançar seria denominá-lo de “Era do gelo.”

Enregelado até a alma, entrei no primeiro taxi que vi, agradecendo mentalmente pela existência de aquecedores em automóveis.

– Santa Claus’s house? – perguntou o motorista antes mesmo que eu dissesse para onde tencionava ir. – É que todos os estrangeiros que aparecerem por essas bandas querem ver o Joulapukki, que é como o chamamos por aqui. Na verdade, são mais de 350 mil visitantes por ano que desembarcam apenas para vê-lo. – disse o taxista com um olhar condescendente.

– E o que você acha de ter um conterrâneo tão famoso?

O rapaz me respondeu apenas me dispensando um sorriso vendedor de carros usados e seguiu surpreendente veloz pela rua alva de neve batida.

Não demorou muito para ele me largar numa esquina gelada e seguir pelo seu caminho embranquecido. A casa se erguia majestosa, ostentando detalhes em vermelho e verde, além de toda aquela parafernália de adornos natalinos  que se poderia esperar levando em conta o seu dono. Mas, foi só ao me deparar com uma das famosas renas que me dei conta de certo nervosismo que me crescia no peito. Ela, por sua vez, me espiou desinteressada por cima da cerca branca demonstrando tédio e voltou a sua atenção para um modesto tufo de capim que irrompia na superfície desafiando a neve rasteira. Estava para conhecer um personagem de fama mundial e era até natural que cultivasse alguma ansiedade. Não é todo dia que a gente pode se encontrar com ícones tão célebres quanto Pelé, Teló e Jesus Cristo.

Enfim, estava ali prestes a falar com o legítimo, o verdadeiro Santa Claus. Conhecido no Brasil como Papai Noel, isto é Pai Natal, pois Noel, na verdade, é Natal em francês. Criei coragem, respirei fundo e apertei a campainha da casa vistosa.

Um garoto mirradinho abriu a porta aparentando desagrado.

– Pois não? – perguntou ele com uma voz estranhamente rouca.

– Eu tenho uma entrevista marcada com o Papai Noel. Posso entrar? Está frio aqui fora!

– Ele está dormindo e você não pode entrar. Só quando ele puder lhe atender. Melhor voltar depois. – despejou ele inexorável.

Eu estava decidido a não arredar o pé dali e apresentei minha resistência.

– Eu poderia falar com algum adulto, garoto?

Foi aí que ele, bufando, simplesmente bateu a porta na minha cara.

Depois de alguns segundos ruminando a surpresa, decidi me sentar nos degraus da escada da frente e esperar. De súbito, me assaltou uma lembrança que acreditava perdida entre as minhas reminiscências mais recônditas. Recordei-me que, caso não fosse atendido pelo Papai Noel, não seria a primeira vez na minha vida. Eu era ainda pixote. Não mais de quatro anos e meu pai havia me levado para pedir pessoalmente o meu presente de natal para o Papai Noel. Lembro-me de ter estranhado o fato de ele receber as crianças numa rua meio escura, usar uma barba desajeitada, um traje puído e apresentar olhos deprimidos. Mas fiquei tão emocionado que não consegui falar o que desejava como presente e caí num choro convulsionado. No dia de natal, acabei ganhando um desgraçado de um pega-vareta. Queria mesmo era um fusca bate-e-volta. Culpei-me sem reservas e nunca mais me perdoei pela minha fraqueza. No entanto, também me dei conta de que Papai Noel não tinha capacidade de ler pensamentos.

– Desculpe o meu elfo, Mr. Franco! – disse o homenzarrão ao escancarar a porta com cara de sono. – Esses duendes têm um temperamento intempestivo e, ainda mais, nesse período do ano que no qual eles trabalham dia e noite.

Levantei-me de um salto e, por um segundo, não esbocei reação. Era ele!   O próprio Papai Noel. Mas, peraí… Havia algo de estranho ali. Ou… Melhor, na verdade, não havia. Mas, calei. Não iria começar a entrevista com indiscrições. Mudo, entrei.

– Você deve estar se perguntando sobre a falta da minha barba, não é? – inquiriu ele plantando dúvidas no meu velho conceito que postulava que Papai Noel não detinha a capacidade de ler pensamentos.

–  Pois, Mr. Noel… – comecei hesitante.

– Pode ficar à vontade… Pode me chamar pelo primeiro nome! – disse ele apontando o sofá vermelho para que eu me sentasse.

– Bem… Senhor Papai! Quer dizer… Papai.

– Nicolau.

– Nicolau?

– Sim, Nicolau Taumaturgo, arcebispo de Mira. Na verdade, São Nicolau.

– Você é um santo? – perguntei perplexo.

– Pois é… A porra de um santo do século IV. Turco! Nada de finlandês! Odeio essa neve toda, esse frio eterno! Sabe quantos meses neva aqui? Oito meses por ano! Quem é que agüenta? E para piorar, ainda tem o tal do sol da meia noite no verão! Isso é propaganda enganosa. Esse sol infeliz não é só da meia noite. É de uma hora, duas horas da madrugada… É um sol mais do que insone, amigo, incansável. Não tem quem suporte! Não sei quem foi o corno que me concebeu aqui nesse fim de mundo gelado, porém não nutro lá muita admiração por ele. Por que não me delegaram para uma ilha tropical e agradável das Antilhas? Ou, quem sabe, nos campos da Toscana para que eu pudesse tomar todo o chianti que me aprouvesse.

– E por que você simplesmente não se muda?  Você não é livre para ser ou fazer outra coisa?

– Alguém realmente é livre, filho? Não somos, todos nós, afinal, escravos do que nos atribuem e dos conceitos que os demais têm da gente? Encare a realidade, rapaz: de fato, de fato, absolutamente ninguém é livre. – decretou o velho cuspindo na lareira um pedaço do charuto cubano que mordiscava.

– Por sinal, é impressão minha ou você está mais magro? – perguntei, só então atentando para a silhueta até comportada do meu entrevistado.

– Outra atribuição, Mr. Franco. Já fui gordo, mas pratico crossfit. Gordura mata, garoto! E como, por diabos, eu poderia descer através de chaminés caso fosse aquela jamanta que me descrevem? Uma sandice pensar nisso, não concorda?

– E quanto à barba, Nicolau? – investi novamente legitimamente curioso. – Mais uma invenção do mercado?

– Na verdade, durante uns bons séculos não foi. Mas, entenda, naquele tempo não havia esses aparelhos de barbear extraordinários que existem na modernidade. E quis mudar um pouco o look de lenhador.

– E o traje vermelho? – perguntei com relutância.

– Odeio encarnado. E, na verdade, isso foi invenção da coca-cola. Mas não posso entrar na casa das pessoas num traje qualquer, não é? Levaria era bala!  Tenho que ir com a alegoria toda!

– Mas, ainda são apenas as crianças boazinhas que ganham presente, não é verdade?

– E eu sei lá quem presta, criatura?! Você acha que eu acompanho a vida de todo mundo como num big brother ou sigo os pestes no twitter? Sei apenas que odeio pivete. Já ouviu falar de um Filho Noel? Nunca! Fiz vasectomia para garantir. E, por sinal quero declarar para o mundo inteiro que nunca, jamais, coloquei qualquer garotinha ou garotinho no meu colo. Para dizer a verdade, acho o hábito uma coisa doentia.

– E a Mamãe Noel?

– Só de fachada! Quem é que tolera tanto tempo ao lado da mesma mulher? E sabe como é: celebridade, veículo possante, viagra genérico… Além do mais, você já viu como as garotas dessa parte do planeta são? As finlandesas, norueguesas, suecas são verdadeiros monumentos! Que terra abençoada!

– Então, é tudo um embuste? – interroguei implacável.

– Tudo-tudo não! As palavras de solidariedade, fraternidade, bondade, perdão, tolerância evidenciadas no Natal sempre serão ferramentas úteis à humanidade. Mas, o problema que as indústrias não as produzem nem as lojas as negociam.

– E o Natal? – fuzilei prendendo a respiração. – Afinal, como o próprio Papai Noel considera a festa de Natal?

Santa Claus não respondeu imediatamente. Ele se ergueu da cadeira munido de um olhar pensativo e caminhou em silêncio até a lareira.

– Mr. Franco, festas são apenas festas! Servem para entreter as pessoas e para fazer a máquina do dinheiro girar. – disse, alimentando o fogo da lareira com folhas e mais folhas de papel, o que fez o meu coração se apertar porque os papéis estranhamente se assemelhavam a cartas. – Mas, ao mesmo tempo, as coisas têm o valor que a gente dá às coisas. Nada, absolutamente nada, tem valor por si só. Posso acreditar que um totem é deus, que o relâmpago é sagrado, que um gato é místico. Nada é, meu amigo. Tudo é atribuído. Já lhe disse.

De repente, o cansaço do mundo se abateu todo sobre mim. Nada como a ignorância para velar o sono dos felizes. Pensei amuado e me ergui para ir embora. Não suportava mais aquela overdose de realidade.

– Não se despeça assim, amigo! – disse o outro com um olhar que – quero cegar – se não pareceu ser de pena. – Você não pode sair sem ganhar um presente.

– Presente? – perguntei abobalhado. – Vou ganhar um presente do Papai Noel?

– Boa fama é troço útil de se manter, não é, filho? – falou ele me entregando um pacote embrulhado soberbamente. – E, é claro, feliz natal, Mr. Franco.

– Para você também, Santa! – concluí ganhando a rua gélida e mundo ao norte do mundo. Mas, saí tão perplexo que foi só dentro do taxi que atinei para o embrulho que pendia esquecido na minha mão. Abri-o, portanto, sem mais demoras.

Até seria possível, mas não me surpreendi. Era a porra de um pega-varetas.