Com a palavra, o palestrante

16 de maio, 2017 - por Max Franco

 

O esperado seminário, enfim, iria começar. Meses de divulgação em outdoors e trocentas postagens em tantas redes sociais que eu nem conhecia. Salão do centro de convenções lotado. Música em alto volume de natureza apoteótica. Cinco minutos de espera. Dez. Depois, quinze. Uma voz de radialista, que me pareceu playback, anuncia o nome do esperado palestrante, coach e consultor. Raio laser e neon. Explosão de fogos no palco e gelo seco. O telão de led estampa, em não sei quantos megapixels, um rosto sorridente. Percebi alguma intervenção cirúrgica naquela face. Alguma maquiagem. Dentes metodicamente embranquiçados. Tudo muito discreto. Ou quase tudo.
– Boa noite, gente querida! – diz o palestrante com ar jovial, sorriso eterno, boca escancarada.
O auditório respondeu mais com um uivo do que com “Boa noite”.
– Quero começar com uma pergunta. Vocês vieram fazer este curso para quê? – falou o homem transitando de lá para cá no palco. Palco o qual, por sinal, lhe caía muito bem. Parecia seu habitat há décadas. – Então, me digam: vocês pagaram caro para fazer este curso durante um final de semana inteiro para o quê?
– Para ser feliz! – grita uma velhinha no meio da plateia e é saudada por palmas teimosas.
– É claro. “Para ser feliz”! Afinal, qual é o nome do nosso seminário?
– “A felicidade é o sucesso!” – grita outro sujeito lá detrás.
– Perfeito! Todos podem repetir?
– “A felicidade é o sucesso!!”
– Foi fraco. De novo!
– “A felicidade é o sucesso!!!”
– Agora sim! E para ser feliz, o que é preciso?
– Querer!
– E você quer, meu amigo? – perguntou o palestrante apontando para mim. Foi aí que ele cometeu  seu primeiro erro.
– Não conheço ninguém que não queira. – falei.
– Não entendi. Fale no microfone. – sugeriu o homem me entregando um microfone de mão, (o dele era um headset finíssimo). Este foi o seu segundo erro.
– Não conheço ninguém que não quer ser feliz. A questão é se vai conseguir ou não.
– Você está equivocado! Nem todos querem ser feliz. Percebo que você não leu o meu livro. Ficou 30 semanas na lista “top 10” dos mais lidos e você não leu. – gracejou o homem atraindo risos da plateia. – Acho que nem sequer “O segredo” você leu, confessa!
– Eu não leio autoajuda, moço. Me perdoe! Acho que só ajuda a quem escreveu. Por isso o nome. Além do mais, é tanta infâmia! É tanta obviedade! É tanto clichê que dói na alma!
– Você acha que falar de autossabotagem, de boicote pessoal, de acreditar nos próprios sonhos, de buscar a prosperidade ferrenhamente, diariamente… Acha que isso é clichê? – disse o homem com olhos esbugalhados e com a voz meio afinada pela surpresa. Via-se que não tinha o hábito de ser confrontado. Veremos como funciona a sua alardeada inteligência emocional.
– Jamais! Imagina…
– Pois, meu caro, se você perseverar neste curso, se eu puder lhe mostrar as minhas posições, vou lhe provar que tenho razão. Vou derrubar os seus argumentos um por um. Vou fazer você vir à frente do palco e, humildemente, pedir perdão pela sua ignorância e arrogância. Se você me deixar lhe ajudar, rapaz, eu terei muito a lhe ensinar e, no final, você será um novo homem. Mais seguro, renovado, seguro e, é claro, feliz!
O tom pentecostal foi tão evidente que quase respondo “Glória a deus”.
– Você acredita, homem? Você acredita que querer é poder? Que querer é o poder? Que se você realmente quiser, vai conseguir! – disse o sujeito errando mais uma vez por me oferecer a chance de usar a palavra. Palavra, a arma mais letal que existe. Mais morreram alvejados por vocábulos do que por mísseis de longo alcance.
– Olha, eu vim aqui, como a maioria das pessoas presentes, para aprender algo e acho que todos podem nos ensinar alguma coisa. Mas, quando eu vi essa parafernália toda. Quando eu percebi todo essa pirotecnia, comecei a desconfiar de canastrice. Gente que tem argumento não precisa destes aparatos…
– Se você me deixar…
– Querer é só parte do enredo, amigo! Esta é a questão! Mas, certamente, a única parte da peça que nos resta é querer e lutar pelo que queremos. Maquiavel fala da “Virtù”, que é o nosso conjunto de habilidades. Mas, também fala da “Fortuna”, que é a força do acaso ou daquilo que não temos controle. Não somos deuses. Não podemos definir tudo ao nosso bel prazer. Não controlamos as intempéries e a ação de terceiros, por exemplo. Deixa eu lhes contar uma história! – disse e subi no palco. Os olhos das pessoas pareciam querer sair das órbitas. – Dizem que Filipe da Macedônia, pai do famoso Alexandre, o Grande, queria dominar toda a Grécia, que era composta por várias cidades-estado. Esparta era uma delas. Durante um cerco, Filipe II envia a seguinte mensagem aos espartanos:“Se não se renderem imediatamente, invadirei as vossas terras. Se os meus exércitos as invadirem, irão pilhar e queimar tudo o que vocês mais prezam. Se eu marchar sobre a vossa terra, arrasarei as vossas cidades.”Alguns dias depois o Rei recebeu a resposta dos espartanos, abriu a carta e lê somente uma palavra: “Se”. Filipe queria muito, mas nunca conseguiu invadir Esparta. Você, por exemplo, – disse ao palestrante com cara de assustado. – quer muito que eu continue no seu curso, mas veja só o que eu vou fazer.

Ao sair do auditório, ouvi duas vozes. A primeira dizia: “Volte aqui, homem! Não abandone a felicidade!” – vociferava o palestrante.

Outra dizia: “Ei, moço, fica e ministra o curso! Seria melhor!”