Para que servem os heróis?

01 de janeiro, 2018 - por Max Franco

Infeliz a nação que precisa de heróis.” Bertold Brecht

Principalmente, nos momentos de maiores crises, como em recessões, depressões econômicas e guerras de grandes proporções, as histórias versam sobre heróis. É uma busca natural, ancestral, de modelos, nem que sejam ficcionais, que nos inspirem a buscar a coragem e reunir a motivação necessária para superarmos as crises.

O Superman, por exemplo, nasceu no meio da maior dificuldade econômica pela qual os Estados Unidos já passaram. Poucos sabem, mas muitos dos super-heróis celebrados neste último século foram criados por judeus e pela mesma razão que o fazem há séculos. Noé, Abraão, Moisés, Davi, Batman, Homem-aranha , X-Men, além de outros festejados e famosos personagens foram criados por judeus. Por isso, os judeus são os mais eficientes storytellers existentes na humanidade, porque desde cedo aprenderam a criar heróis e histórias de superação, urdidos propositalmente, prêt-a-porter, para inspirar e motivar as pessoas em tempos difíceis. Afinal, heróis são bastiões de resiliência. Quem dispensaria, nos tempos modernos, tal recurso?

Veja bem, não estou dizendo que as figuras bíblicas não existiram. Estou apenas dizendo que foram construídos como personagens pelos cronistas que narraram as suas histórias.

Nós também estamos vivendo um período de obstáculos agudos. Uma fase na qual se fala amiúde de desânimo ou de crise. O pessimismo está na pauta e a desesperança, em voga. Viva o fim do mundo porque ele está na calçada e vem chegando.

– O que fazer?

Há um debate sobre essa questão. Uma ala tem medo dos heróis, principalmente, dos construídos, customizados para o momento e com razão. Não há como se negar, heróis produzidos geralmente são letais. Hitler e Osama Bin Laden já foram considerados heróis. Um herói de uma época pode, com facilidade, ser considerando um canalha noutra. Um herói de um povo, quase seguramente, é tido como um vião sanguinário por outro. Napoleão, por exemplo, é visto como herói por muitos franceses. Mas, pergunte para um espanhol, russo ou português para checar a sua opinião. Não acredito que você vá escutar muitos elogios.

Embora o emprego de narrativas que exaltem mitos e heróis seja amplamente usado como instrumento de dominação e manipulação de um povo, a história comprova que é praticamente impossível se conseguir mover as massas sem heróis.

Para o historiador Iuval Harari, no seu excelente Sapiens: uma breve história da humanidade, só há uma forma de mobilizar grupos numerosos, por exemplo, com mais de 150 pessoas, que é o método de se criar uma ficção que traga um apelo emocional. Times de futebol, empresas, pátria, marcas, produtos, destinos turísticos e serviços de Educação entram neste rol de elementos que reúnem as místicas capazes de conglomerar e mobilizar atenção e esforços. Para mover as pessoas, nada como uma boa causa, ideal ou símbolo. Por isso, bandeiras e hinos são tão emblemáticos. E, como eles ou mais do que eles, heróis.

Para que – também – servem os heróis na modernidade? Para vender shampoo anticaspa. O mercado utiliza a imagem dos heróis também para fins menos sofisticados. A questão é que eles sempre têm a capacidade de mobilizar.

Motivar vem do latim movere, e significa “Deslocar ou fazer mudar de lugar”. Não é por acaso que o vocábulo “emoção” vem do mesmo radical latino. A conclusão é simples: o que nos move é sempre a emoção. Afinal, como costumo dizer: não somos seres pensantes que temos emoções. Somos seres emocionais que pensamos.

É por isso que precisamos tanto de histórias para nos inspirar. Porque histórias e heróis nos mostram o viés mais atraente da alma humana: a capacidade de superação!