Michelângelo, O Divino

25 de outubro, 2016 - por Max Franco

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Dizem que Michelângelo era feio. Ele teria levado um murro no rosto de um colega quando era criança que lhe deixou o nariz para sempre achatado. Especulam se não era por causa da sua feiúra pessoal que ele amava tanto a beleza. Amava e tal forma que a produziu como poucos.
Na verdade, como pouquíssimos, Michelângelo fez Arte. A Pietá, por exemplo, foi esculpida quando ele tinha apenas 23 anos. Inclusive, os críticos, de plantão desde cedo, alegavam que não era dele. Ele era demasiado jovem para fazer algo com tal profundidade. Michelângelo, sempre intempestivo, empunhou seu cinzel e gravou o seu nome na faixa que cruza os seios da Madonna.
Podiam acusar o Papa Julio II de muita coisa, menos de modéstia. Ele convocou o gênio e encomendou 40 estátuas para o seu mausoléu. Era uma empreitada longa, hercúlea e, obviamente, caríssima. Michelângelo só fez uma, o Moisés. Um personagem com a cara e com o espírito do Papa. Afinal, Della Rovere não era famoso pela sua condescendência. Moisés era uma estátua enraivecida. O patriarca acabara de ver o seu povo, o povo hebreu, adorando um bezerro de ouro, depois de tudo que tinham passado, depois de todas as demonstrações de apreço do Deus único, depois de tudo… Talvez Michelângelo já soubesse como o Papa iria reagir quando tivesse notícia que ele havia fugido para a Toscana, com todo o dinheiro da encomenda no bolso.
Não demorou muito para que o “divino”, escoltado pela guarda papal, tivesse que se apresentar novamente no Vaticano. Mas, agora a solicitação seria outra. Uma que ele odiaria fazer. Michelângelo considerava a pintura uma arte menor. Mesmo assim, ele teria que pintar a capela do Papa, a capela Sistina. Não tinha mais escapatória para ele.
O artista começou a pintura do teto da capela em 1508, mas como trabalhava sozinho e desejava fazer algo nunca antes tentado, só acabou 6 anos depois.
Anos depois, em 1536, ele volta a trabalhar na capela. Dessa vez, ele deseja uma obra ainda mais emblemática do que a primeira. Dessa vez, ele quer algo tão glorioso quanto um apocalipse. Michelângelo foi ousado de várias maneiras no seu Julgamento final. As figuras bíblicas nunca tinham sido personificadas daquele jeito. Vemos no centro da pintura o coro dos anjos anunciando o fim do mundo. Jesus está voltando e traz a conta para justos e pecadores. Jesus é um Apolo, com corpo musculoso, sem barba, mas com atitude implacável. Os demais santos e mártires também deviam ser assíduos frequentadores de academias de musculação. Em todo lugar, vemos referências a mitos cristãos ao lado de gregos. É Caronte, por exemplo, que transporta – delicadamente – os pecadores ao inferno.
Vemos logo abaixo de Jesus e de Maria, que, estranhamente, não se apresenta tão interventora e compadecida quanto se espera, um mártir famoso: São Bartolomeu. Ele traz à mão um alfanje, a faca possivelmente utilizada para esfolá-lo ainda vivo. Na outra mão, está a sua pele onde alguns conseguem ver o rosto nada glamouroso do autor da grande obra.
O melhor porém está no pior. Foi Dante que descreveu em palavras o inferno, mas foi com Michelângelo que conseguimos vê-lo. Ninguém, decerto, desejaria ir para nenhum dos dois.
Enquanto do lado esquerdo do observador, vemos mortos ressuscitando e subindo aos céus, do lado direito, contemplamos seres deformados, demoníacos, padecendo no inferno. Um deles, por exemplo, tem uma história famosa. Logo acima da porta, vemos um sujeito horroroso cercado de outros tão impopulares quanto. Ele ainda tem outro inconveniente: uma imensa cobra esmaga seu corpo e morde os seus testículos. Quem é o cidadão que merece tal sina pela eternidade? Dizem que se chamava Biagio di Cesena, e era um assistente do Papa Paulo III. Falam que era um homem mesquinho e sempre pronto a adular o pontífice na mesma proporção que perseguia o artista. Em especial, Biagio reclamava dos nus dentro da capela do papa e da demora em finalizar a pintura. Michelângelo se vingou pintando-o no inferno. O assistente, então, parte célere para a sua especialidade que é adular o papa. Um expediente que, dessa vez, não funcionou como ele desejara, porque o Papa lhe respondeu dessa forma:
– No inferno?! Ele lhe pintou no inferno? Sinto muito, mas o papa não tem nenhuma jurisdição no inferno e nada pode fazer.
E até hoje o pobre diabo continua naquela posição sem muita chance de habeas corpus.
Michelângelo, O Divino, foi ainda mais reconhecido por outras grandes obras que produziu e, entre elas, um gigante, o David, um símbolo de astúcia e força feito para proteger Florença de qualquer adversidade.