Homo Sapiens, um storyteller há dezenas de milhares de anos

27 de junho, 2019 - por Max Franco

           Pelo que atestam os historiadores, o Homo Sapiens tem a sua origem por volta dos 300 mil anos atrás e começou a fazer uso do seu aparelho fonador para se comunicar de modo verbal há – algo em torno – de 70 mil anos. A arte, por sua vez, tem sua origem por volta dos 30.000 atrás. Como demonstra a Vênus de Willendorf (28 a 25.000 a.C) e os registros de arte rupestre em Lascaux, na França, e Altamira, na Espanha (17 a 15.000 a.C). Mas, é somente na antiga Mesopotâmia que a escrita é elaborada e criada. Por volta de 4.000 a.C., os sumérios desenvolvem a escrita cuneiforme usando placas de barro, onde cunham essa escrita.

A narrativa mais antiga registrada é a “Epopeia de Gilgamesh”[1], datada entre 2800 a 2500 a.C. Feita muito tempo antes da Bíblia hebraica, das mitologias gregas e romanas, da Ilíada de Homero, dos textos budistas ou do Mahabharata[2] hindu, os sumérios contaram a jornada do rei de Uruk, que realiza diversas façanhas em busca da imortalidade. Essa história mística e épica chegou até os tempos contemporâneos quando os arqueólogos decifraram tabuletas de argila resgatadas no sul do atual Iraque.

É possível que algum dia os estudiosos e arqueólogos tenham êxito em garimpar registros ainda mais remotos do que a Epopeia de Gilgamesh. Mesmo assim, as histórias escritas serão muito mais recentes do que as narrativas orais. As histórias de Aquiles, Moisés, Odisseu, Buda, Hércules, Perseu, Davi ou qualquer outro herói tiveram início no ambiente da oralidade e, mediante digressões ou dispersões, seguiram por séculos como narrativas contadas e cantadas de pai para filho, de geração em geração. Essas lendas, mitos e relatos ancestrais só são muito depois registrados no barro ou pergaminho, como, por exemplo, ocorreu com os contos de fadas, os quais, depois de séculos de narrativas orais, acabaram por serem registrados pelos irmãos Grimm, Perrault e Hans Christian Andersen.

A teoria do historiador italiano Carlo Ginzburg (1990, p. 151) postula que a narração deve ter se originado numa sociedade de caçadores, antes de todos os relatos religiosos, antes das lendas dos povos e dos mitos das civilizações, antes até que os homens se organizassem em aldeias, cidades e impérios. Ao correr entre as savanas, fugindo de predadores ou perseguindo a caça, o homo sapiens deve ter conseguido perceber as marcas deixadas na natureza pela presa ou por outros sapiens. Essa possível aventura concebida no neolítico serve para ilustrar o aparecimento do primeiro storyteller: o primeiro sujeito que utilizou a imaginação para elaborar e contar uma história para os seus semelhantes.

Desde aquele primeiro ato do caçador neolítico de milhares de anos atrás, o homem, a rigor, é sempre um investigador e um contador de histórias.

O historiador israelense Yuval Harari (2012) batiza essa transformação com o nome de revolução cognitiva, que teve início quando o ser humano começa a imaginar deuses, mitos, lendas e religiões e quando, a partir dessas concepções, homens se reúnem em grupos cada vez maiores que acreditam nas mesmas coisas e, por isso, cooperam entre si. Para Hahari, esse fenômeno é fator determinante, o divisor de águas, da ascensão do sapiens sobre todos os demais seres vivos. A cooperação em função da caça logo se torna cooperação para a guerra, para o comércio, para o culto, para as navegações, depois para o conhecimento e daí por diante. Os pequenos bandos de sapiens se transformam em aldeias que viram cidades, que compõem impérios e que, por fim, formam uma grande aldeia global.

 

[1]  A Epopeia de Gilgamesh é uma coletânea de poemas místicos redigidos em sumério. É provável que seja o mais antigo texto literário escrito pelo homem, por volta do fim do terceiro milênio antes de Cristo, preservada em placas de argila. Foi encontrada numas ruínas na Mesopotâmia, em 1890.

Fonte: <https://www.infopedia.pt/$a-epopeia-de-gilgamesh>.

[2]  O Mahabharata narra a guerra entre Pandavas e Karauvas – duas famílias com laços de parentesco muito próximos – pela posse de um reino no norte da Índia. É também o maior poema de todos os tempos, com cerca de 200 000 versos. Fonte: <https://www.britannica.com/topic/Mahabharata>.