Aula de empatia

11 de janeiro, 2018 - por Max Franco

A verdade é que até gostamos da zona de conforto. Trabalhamos com afinco e esforço para buscar segurança e acomodação para nós e para aqueles que amamos. A busca pela segurança é também uma pulsão humana das mais naturais. O problema é que o mundo comum não nos satisfaz por muito tempo. O problema é que queremos mais.  E mais do que mais, queremos diferente de antes.

Queremos o quê?

Emoções, meu caro. Como diria o Roberto: emoções! Somos eternos garimpeiros de emoções!

O problema é que a zona de conforto tem prazo de validade e é curto. O desejo pela caçada ficou muito tempo inserido no nosso cérebro para sair assim sem deixar vestígios. Eles estão todos lá. Por isso, queremos surpresas, descobertas e travessuras. Mas como, atualmente, somos demasiado covardes fazer isto na vida real, apelamos para sublimações, simulações e/ou projeções que compensem o desejo inconsciente pela aventura. É justamente para preencher essa lacuna que existem romances, filmes e séries de tv. Eu não faço, mas o meu personagem-avatar faz no meu lugar. Quem é o bom personagem? Simples, é o empático. É aquele que proporciona com mais facilidade que você se coloque no seu lugar. Esta é a grande história contada e recontada pela humanidade, por milhares de anos, em todos os lugares deste planeta azul: a história que lhe permite participar. A sua história que não é sua.

Mas, falemos um pouco dessa cantada em verso e prosa empatia. Vejamos o que diz o dicionário online sobre o significado de empatia:

s.f.: “Ação de se colocar no lugar de outra pessoa, buscando agir ou pensar da forma como ela pensaria ou agiria nas mesmas circunstâncias. Aptidão para se identificar com o outro, sentindo o que ele sente, desejando o que ele deseja, aprendendo da maneira como ele aprende…”

A origem no termo em grego empatheia vem de “paixão” ou “padecimento”, isto é, dor. Por isso, denominamos de “paixão de Cristo” ou de “patologia”. Também, pelo mesmo motivo, o apático não demonstra emoção e o antipático se posiciona contra. A empatia, por sua vez, pressupõe uma interlocução afetiva com outra pessoa e é um dos fundamentos mais relevantes de identificação e compreensão psicológica entre os indivíduos. Entretanto, na maioria das vezes que você for pedir uma definição de empatia, o conceito que virá será mais simples. Vão lhe dizer que empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro.

Nas minhas palestras, costumo provocar a assembleia trazendo uma reflexão. Siga o meu pensamento e observe se não tenho (alguma) razão. Se eu só consigo ser empático se me coloco no lugar do outro, na realidade, eu me importo com quem? Se naquele lugar estou eu, é óbvio que eu só me importo comigo mesmo. Podemos fazer apologias à solidariedade e à fraternidade, podemos falar de neurônios-espelho,  podemos enaltecer o instinto de bando, podemos qualquer coisa, mas a verdade é que só nos importamos com alguém se nos colocamos no seu lugar. No frigir dos ovos, até quando solidários, somos – de certa forma – egoístas e egocêntricos.

Já entendemos que o personagem ideal é aquele que nos traz para dentro da história. Por isso, nos importamos mais com a sobrevivência do Jon Snow, em Game of thrones, do que com a do nosso vizinho. Você talvez nem saiba o nome do seu vizinho.

Não me julgue mal, caro leitor, sei que as minhas provocações podem lhe soar mal, mas não estou fazendo juízo de valores, nem defendendo comportamentos. Como disse antes, desejo apenas suscitar reflexões que possam ser relevantes.  No caso, quero lhe demonstrar o poder que uma história com personagens bem contruídos pode exercer sobre nós. Não quero jamais professar que as pessoas se importam, muitas vezes, mais com personagens fictícios do que com gente viva de carne e osso. Que, talvez, nós nos incomodemos e nos solidarizemos mais com as desventuras dos Starks do que com alguns membros da própria família. Eu nunca diria algo do gênero…

Neste território, eu tive um excelente guia. Ele se chama Arthur. Na época, tinha 7 anos. Eu lhe havia prometido que levaria ele e o Levi ao cinema. Eles queriam assistir ao filme “Tartarugas ninja” e – como é de praxe – o papel de pai também exige alguma submissão a alguns flagelos.

Fomos, então, ao tal filme. Comprei os ingressos, pipoca e guaraná, kit completo do programa de cinema. Deixei no caixa o valor no mercado negro de um fígado e entrei na sala de cinema. Mal começou o filme, o meu filho declarou: “eu sou o Rafael”. O amigo dele não se fez de rogado respondendo de pronto: “Pois eu sou o Michelângelo”.

Nas minhas contas pessoais, eu considerava que era mais interessante ser Michelângelo do que Rafael, contudo, no filme, quem salva o dia é exatamente o tal do Rafael. Foi aí que o Arthur dá a alfinetada final no seu amigo: “Viu o que eu fiz?”.

Eis a melhor conceituação de empatia que eu já tive.

Gostar do personagem e torcer por ele não é empatia, é simpatia.

Empatia é quando você é o personagem.

Este é um processo psicológico dos mais comuns. É uma espécie de compensação. A sua vida é chata e sem graça? Não tem problema! O seu personagem tem uma vida cheia de emoções. Você está tendo dificuldade de atravessar diversos obstáculos? O seu personagem supera as maiores provações. Ele salva até o mundo!

Há sempre, porém, aqueles que não se satisfazem com as projeções e compensações, com   as proezas de poltrona e com os tranquilos perigos do netflix. Estes vão buscar os hormônios da felicidade, a serotonina, a dopamina e a adrenalina, no mundo real. Há aqueles que gostam de viver perigosamente. É aquele sujeito que pratica esportes radicais ou que arranja uma amante, mesmo  sabendo que o último é muito mais arriscado.

A questão é a zona de conforto de fato conforta, mas não só. Ela também vai lhe entediar, deprimir, engordar, adoecer e, talvez, até matar.