As minas de ouro

07 de agosto, 2017 - por Max Franco

Era cedo da manhã, quando saímos do hotel. Café da manhã reforçado, temperatura nem quente nem fria, naquele temperado adorável de primavera em Minas Gerais. Era onde estávamos, nas Minas, literalmente nas minas. Naquele dia, por sinal, visitávamos uma mina de ouro desativada na cidade de Ouro Preto, outrora chamada “Vila Rica”, justamente por causa daquele ouro e daquelas minas.

Eu, estagiário do curso de Pedagogia, acompanhava o Colégio José de Alencar, com intuito de conhecer o aclamado trabalho com metodologias ativas da escola. Devo dizer que estava boquiaberto com tudo aquilo que aquela ousada escola andava fazendo. No dia anterior, tínhamos visitado a Gruta de Maquiné. Um espetáculo, de gruta e de trabalho. O colégio, antes de qualquer coisa, entendia que viagem pedagógica e estudo de campo deveriam ser atividades obrigatórias. Por isso, desde cedo, em todos os anos, há estudos do meio. Cada um adaptado ao currículo da série. A escola, portanto, inclui a viagem na sua previsão financeira e os pais, compreendendo a iniciativa, compram a ideia, e a viagem.
Na Gruta de Maquiné, foi um impressionante! Os alunos já tinham feito estudos prévios e, em vez de os professores ficarem, ininterruptamente, falando e falando, eram os garotos que o faziam. Já vi muitas escolas que pecam nesse aspecto, substituindo a aula expositiva em classe pela aula expositiva em campo. No fim, é tradicional do mesmo jeito. Só muda o endereço no conservadorismo. Ali, eram os alunos que explicavam os detalhes do lugar, tratando, por exemplo, das formações calcárias, das estalagmites, estalactites, da origem da gruta, da fauna e flora do local e, inclusive, um grupo de alunos encenou a “alegoria da caverna”, de Platão. Interdiciplinaridade, transdiciplinaridade, pedagogia de projetos, Storytelling,PBL, dramatização, sala de aula invertida, trabalho em grupo, oratória… tudo reunido numa só atividade pedagógica. Eu chamaria de goleada educacional!
Hoje, vamos fazer algo parecido nesta mina. Chama-se “Mina do Chico-rei”. O professor chamou a atenção de todos quando estávamos no interior da mina:
– Quem gostaria de me explicar o que acontecia aqui? Como era a jornada de trabalho dos escravos? Quero ouvir uma história! Quem me conta a história de um negro escravizado daquela época e como era a sua vida? Como ele chegou ao Brasil? De onde veio? Quais eram as condições da viagem? Onde ele morava? Como morava? Quais as suas atividades? O que era um “santo do pau oco?”, Por que as igrejas tinham tanto ouro e como ele era colocado nos altares? Como era este processo? Quero entender também as pinturas. Como eram feitas? Como funcionava o barroco mineiro? Qual era a diferença do barroco europeu? Me falem de Aleijadinho. Da pedra-sabão. Me falem da abolição. Lei do ventre-livre. Lei áurea. Me falem de inconfidência mineira. De Tiradentes. Também quero saber de Tomás Antônio Gonzaga. Me falem…
Estas eram as perguntas dos professores. Na maioria do tempo, apenas perguntavam. Em alguns momentos, replicavam, pontuavam e reforçavam conceitos. O método utilizado, desta vez, se chama “perguntação”, mas também usavam PBL, Aprendizagem em pares, pedagogia de projetos e predição, quando pediam para, criativamente, concluírem histórias.
– João Luanda trabalhou nesta mina dos 18 aos 56 anos. Era um herói. A maioria morria depois de poucos anos de trabalho incessante e cruel. Aos 56, porém, estava envelhecido, doente, banguela e quase cego. E aí, veio a esperada libertação. A boa notícia, porém, tinha outro lado. E agora, o que iria fazer? Não tinha mais a ração diária. Não tinha teto. Não tinha arrimo…Em equipes de cinco, concluam esta história. – propôs o professor.
Os alunos amaram o desafio. Na verdade, amavam todos os desafios. Naquela escola, não eram meros coadjuvantes, mas protagonistas dos seus saberes. Pesquisavam e estudavam com avidez porque viam a funcionalidade do conhecimento conquistado. Eram curiosos, críticos e participativos. Dava gosto de ver!
– O que o Estado devia ter feito por estes libertos? O que faz hoje pelos seus descendentes? O país tem, de fato, uma “dívida histórica” com esta gente? Nós somos esta gente? O que mais o governo deveria ou poderia fazer? – propôs a professora de Filosofia.
– Amigos, e hoje? Qual tipo de atividade as pessoas desta comunidade poderiam fazer para melhorar a condição social delas? Como o Estado e a sociedade civil poderiam contribuir? Qual produto ou serviço poderia ser oferecido? Quero um plano financeiro e um projeto com um cronograma.
-Podemos fazer entrevistas, professor? – perguntou um menino de 15 anos, o Arthur. – Assim, podemos entender a realidade da comunidade e aí propor sugestões adequadas.
– Você é um gênio, Arthur! Mãos à obra! Lembrem-se que quero todas as projeções e cálculos. Depois, iremos entregar o nosso projeto da associação de moradores, na câmara de vereadores e na prefeitura. Vamos, também, compartilhar nas nossas redes sociais e no jornal da escola. Para isso, temos os nossos “jornalistas” de plantão registrando tudo. – disse o professor apontando para uma dupla de adolescentes que faziam a “cobertura” da atividade. – À noite, eles farão uma webconferência para partilhar as experiências. Não faltará público acompanhando.
É um grande prazer ver a aprendizagem acontecendo assim, ao vivo, emocional, em cores, on-line, verdadeira, vibrante, ativa, cidadã, inserida nos contextos e transformadora. Eu estava com muito orgulho de fazer parte daquele projeto e, também, muito feliz. Eu sou apenas um garoto, um estudante. Mas, um sujeito fica feliz quando descobre o que quer ser quando crescer. Eu quero ser professor, mas não um qualquer. Quero fazer história. Quero formar protagonistas.