A Ressurreição e o Elixir

06 de janeiro, 2018 - por Max Franco

{Quero convidar mais uma vez Christopher Vogler, o autor do Guia prático para o herói de mil faces, para paticipar mais uma vez do bate papo:
“ Um novo eu precisa ser criado para um novo mundo. Assim como os heróis precisaram se livrar do seu antigo para entrar no Mundo Especial, agora precisam se livrar da personalidade da jornada e formar uma nova que seja adequada para o retorno para o Mundo Comum. (…)
Uma função da Ressurreição é a de limpar o cheiro da morte dos heróis, mas ao mesmo tempo ajudá-los a reter as lições da provação. A falta de cerimônias públicas e acompanhamento para os veteranos da Guerra do Vietnã podem ter contribuído para os problemas terríveis que estes soldados tiveram para se reintegrar à sociedade. As sociedades conhecidas como primitivas parecem mais bem preparadas para lidar com o retorno dos heróis, pois dispõem de rituais para purgar o sangue e a morte dos caçadores e guerreiros a fim de que voltem como membros pacíficos da sociedade.
Os caçadores que retornam podem ter de ficar de quarentena por um período longo, longe da tribo. Para reintegrar os caçadores e guerreiros à tribo, os xamãs usam rituias que imitam os efeitos da morte ou até mesmo levam os participantes às portas da morte. Os caçadores ou guerreiros podem ser enterrados vivos por um tempo ou confinados em uma caverna ou cabana de purificação para simbolicamente crescer no ventre da Terra. Em seguida, são erguidos (ressuscitados) e recebidos como membros recém-nascidos da tribo.
A arquitetura sagrada tem o intuito de criar essa sensação de ressurreição ao confinar os adoradores em um salão estreito e escuro ou túnel, como um canal de nascimento, antes de levá-los para uma área aberta e bem iluminada com a correspondente elevação do alívio. O batismo por imersão num rio é um ritual feito para dar uma sensação de Ressurreição, limpando o pecador e retirando-o da morte simbólica por afogamento.“
(A jornada do escritor, Christopher Vogler)

​A relação da Jornada do herói com a Jornada do aprendiz poucas vezes traça um paralelo tão semelhante quanto no caso destas etapas finais do monomito de Campbell.
​O aprendiz, afinal, também passa por inúmeras provações para ultrapassar os obstáculos que são inerentes ao processo de aprendizagem. Ele traz os aprendizados que acumulou neste trajeto e as experiências de sofrimento e renúncia pelas quais teve que passar para chegar até ali. Não é mais o mesmo que começou o percurso. É, sem dúvidas, um novo sujeito que descreve um movimento de retorno ao seu mundo ordinário. No entanto, ele não vem com as mãos vazias. O herói sempre traz algo para partilhar com a comunidade. No caso do nosso aprendiz, ele traz um mais do que um elixir apenas, ele traz um estoque completo. O aprendente que consegue superar as respectivas provações poderá partilhar com a coletividade não só todo o conhecimento técnico que desenvolveu, mas também todas as lições que aprendeu como ser humano. Ele amealhou uma história de sucessos no campo técnico e existencial. E, por isso, servirá como referência para o seu grupo, funcionando como um exemplo a ser seguido, como um modelo para os mais jovens e como um símbolo de orgulho para os mais velhos. O nosso aprendiz, agora, é um farol. Ele já tem um legado tamanho que pode até já assumir o posto de mentor para aqueles que não têm ainda a sua experiência. Ele pode, inclusive, deixar um legado. Função primordial de qualquer herói ou mito.}

FRAGMENTO DO “STORYTELLING E SUAS APLICAÇÕES NO MUNDO DA EDUCAÇÃO, A JORNADA DO APRENDIZ