A primeira história

25 de fevereiro, 2019 - por Max Franco

A aplicação moderna do storytelling é eficaz justamente porque não é moderna. Histórias são contadas desde os tenros anos da humanidade.

A narrativa mais antiga registrada é a “Epopeia de Gilgamesh”[1], datada entre 2800 a 2500 a.C. Feita muito tempo antes da Bíblia hebraica, das mitologias gregas e romanas, da Ilíada de Homero, dos textos budistas ou do Mahabharata[2] hindu, os sumérios contaram a jornada do rei de Uruk, que realiza diversas façanhas em busca da imortalidade. Essa história mística e épica chegou até os tempos contemporâneos quando os arqueólogos decifraram tabuletas de argila resgatadas no sul do atual Iraque.

É possível que algum dia os estudiosos e arqueólogos tenham êxito em garimpar registros ainda mais remotos do que a Epopeia de Gilgamesh. Mesmo assim, as histórias escritas serão muito mais recentes do que as narrativas orais. As histórias de Aquiles, Moisés, Odisseu, Buda, Hércules, Perseu, Davi ou qualquer outro herói tiveram início no ambiente da oralidade e, mediante digressões ou dispersões, seguiram por séculos como narrativas contadas e cantadas de pai para filho, de geração em geração. Essas lendas, mitos e relatos ancestrais só são muito depois registrados no barro ou pergaminho, como, por exemplo, ocorreu com os contos de fadas, os quais, depois de séculos de narrativas orais, acabaram por serem registrados pelos irmãos Grimm, Perrault e Hans Christian Andersen.

A teoria do historiador italiano Carlo Ginzburg (1990, p. 151) postula que a narração deve ter se originado numa sociedade de caçadores, antes de todos os relatos religiosos, antes das lendas dos povos e dos mitos das civilizações, antes até que os homens se organizassem em aldeias, cidades e impérios. Ao correr entre as savanas, fugindo de predadores ou perseguindo a caça, o homo sapiens deve ter conseguido perceber as marcas deixadas na natureza pela presa ou por outros sapiens. Essa possível aventura concebida no neolítico serve para ilustrar o aparecimento do primeiro storyteller: o primeiro sujeito que utilizou a imaginação para elaborar e contar uma história para os seus semelhantes.

É provável que, há milhares de anos, um sujeito que estivesse perpetrando uma caçada devesse empregar dose igual de atenção, tanto para encontrar a sua presa, quanto para não virar presa de outros predadores. Um sapiens da época era decerto mais forte fisicamente do que a mesma espécie do século XXI, no entanto não seria capaz de rivalizar com outros animais do período. Restava ao homem, portanto, antecipar ou evitar as ações dessas feras decifrando os sinais da natureza. É essa atitude que traz um misto de autopreservação, fome e cogitação que vai lhe alimentar a capacidade de imaginar.

Para Ginzburg, ao perceberem os indícios deixados na paisagem – pelos, cheiros, excrementos e pegadas deixados para trás na passagem de um bicho ou pessoa –, os sapiens souberam “ler” esses indícios que sugeriam para os antigos rastreadores como, quando e quem havia passado por aquele lugar. Esse hipotético caçador deve ter dito aos seus companheiros de aventura: “Alguém passou por aqui”. Essa declaração, aparentemente banal, pode ter sido a primeira narrativa feita por um homem em todo o mundo. Ela determina a primeira vez em que um homo sapiens cogitou algo que não estava ali materializado diante dos seus olhos e depois transmitiu esse conhecimento aos demais. Esse fato marca o momento em que os caçadores se transformam em narradores.

Portanto, deve ter sido a luta pela sobrevivência o estopim para o surgimento do pensamento histórico-dedutivo e, também, da fantasia. A capacidade de pensar em coisas que não estão visíveis logo se transforma na capacidade de imaginar coisas que não existem.

Ginzburg deseja utilizar essa parábola do caçador neolítico para ilustrar uma mudança radical na percepção dos homens. É um alargamento de visão de mundo que ocorre nos sapiens. Antes era uma espécie de eterno presente, depois dessa experiência, eles têm uma noção de potencial passado. Um recurso de investigação do passado ainda utilizado por diversos ramos profissionais. Ginzburg consegue relacionar o mito da origem do primeiro contador de histórias com o historiador, que ainda recorre aos indícios deixados pelo tempo para deduzir relações e produzir uma narrativa crível, praticando, assim, uma “profecia do passado”. Como diz o próprio: “Se a realidade é opaca, existem zonas privilegiadas – sinais, indícios – que permitem decifrá-la”. (GINZBURG, 1989, p. 177).

Porém, não é só ao historiador que Ginzburg associa os caçadores-coletores da antiguidade. Para ele, o médico que alcança um diagnóstico depois de anamneses ou exames também age da mesma forma. O detetive que investiga as pistas de um crime, o psicanalista freudiano que busca no passado do seu paciente os motivos para a sua angústia, os críticos de arte que analisam uma pintura renascentista… Todas essas atitudes se baseiam num modo de inquirir e deduzir de forma indireta. É o que ele chama de paradigma indiciário[3]. Esse novo paradigma é desenvolvido a partir do método criado pelo crítico de arte italiano Giovanni Morelli. Fazendo uso do método indiciário, Morelli catalogou e classificou obras em vários museus, por meio de análises minuciosas, se detendo nos “pormenores mais negligenciáveis” (GINZBURG, 1989, p. 144), que, segundo Morelli, são tidas como meio de identificar os artistas que produziram a obra. “Ora, Morelli propusera-se buscar no interior de um sistema de signos culturalmente condicionados como pictórico, os signos tinham a voluntariedade dos sintomas (e da maior parte dos indícios)” (GINZBURG, 1989, p. 171).

Desde aquele primeiro ato do caçador neolítico de milhares de anos atrás, o homem, a rigor, é sempre um investigador e um contador de histórias.

[1]  A Epopeia de Gilgamesh é uma coletânea de poemas místicos redigidos em sumério. É provável que seja o mais antigo texto literário escrito pelo homem, por volta do fim do terceiro milénio antes de Cristo, preservada em placas de argila. Foi encontrada numas ruínas na Mesopotâmia, em 1890.

Fonte: <https://www.infopedia.pt/$a-epopeia-de-gilgamesh>.

[2]  O Mahabharata narra a guerra entre Pandavas e Karauvas – duas famílias com laços de parentesco muito próximos – pela posse de um reino no norte da Índia. É também o maior poema de todos os tempos, com cerca de 200 000 versos. Fonte: <https://www.britannica.com/topic/Mahabharata>.

[3] Pode-se dizer que o Paradigma Indiciário, de Ginzburg, se resume ao trabalho detetivesco, ou seja, o historiador italiano parte do pressuposto de que toda realidade está repleta de pequenos detalhes que permitem vê-la numa profundidade pouco costumeira. Ele traz Giovanni Morelli (1816-1891), Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle (1859-1930) e Sigmund Freud (1856-1931) para uma mesma trama histórica visando à exposição de um paradigma. Fonte: <www.uern.br/professor/arquivo_baixar.asp?arq_id=100>.